123 Eraõ os oppositores cinco descendentes delRey D. Manoel, que pertendiaõ herdar o Reino por linha transversal, além de outros pertendentes, que todos fizeraõ sua opposiçaõ, como foy a Rainha de França Dona Catharina, por allegar que descendia delRey de Portugal D. Affonso III. e de Dona Matilde sua primeira mulher, mas foy exclusa sua pertençaõ por improvavel. Tambem a Sé Apostolica pertendia que fosse huma Coroa o espolio de hum Capello vago, mas naõ se fez caso da pertençaõ do Pontifice, porque na presente opposiçaõ só se tratava dos descendentes delRey D. Manoel, como se vê na Taboa seguinte.

ElRei D. Manoel entre outros filhos teveA Infanta Dona Isabel Imperatriz, que casou com Carlos V. Imperador, e teve aFilippe II.Rey de Castella 1. pertendente
A Infanta Dona Brites, que casou com D. Carlos Duque de Saboya, e teve a Manoel FilisbertoDuque de Saboya, e Principe de Piemõte 2. pertendente.
O Infante D. Luiz Duque de Béja naõ casou, mas de Violante Gomes, chamada a Pelicana, teve aD. Antonio Prior do Crato, 3. pertendente.
O Infante D. Duarte Duque de Guimarães casou com Dona Isabel filha de D. Jayme Duque de Bragança, e teve a D. Maria, q casou com o Principe de Parma, de quem teve aRainucio Principe de Parma, e 4. pertendente.
D. Catharina que casou com D. Joaõ Duque de Bragança 5. pertendente.

Destes foy excluido o Prior do Crato por illegitimo, o Duque de Saboya por estrangeiro, o Principe de Parma por falta de representaçaõ, pois já era bisneto, e tambem porque sua Mãy, casando fóra do Reino, perdeo o direito, que a elle podia ter, como se mostra das Cortes de Lamego; de sorte que só ElRey Filippe, e a Senhora Dona Catharina, como estavaõ em igual gráo, tinhaõ jus para a pertençaõ, e mayor a Senhora Dona Catharina.

124 Naõ queria ElRey D. Henrique decidir este ponto, e assim nomeou em Cortes Juizes para a decisaõ delle, e cinco Governadores para sentenciarem a quem verdadeiramente tocava o Reino; e depois passando-se para Almeirim por causa da peste, que já lavrava em Lisboa, veyo a falecer em 30 de Janeiro de 1580 com sessenta e oito annos de idade, e dezasete mezes de governo. Houve hum grande eclipse da Lua na mesma noite, em que espirou, e hum geral sentimento, porque todos viaõ com aquella morte o Reino tambem eclipsado. De Almeirim foy conduzido seu corpo para Belém, onde agora jaz em nobre sepultura, que lhe mandou fazer o Senhor Rey D. Pedro II. no anno de 1682, e por causa da trasladaçaõ foy visto, e achado seu corpo inteiro, depois de terem passado cento e dous annos, por cujo sinal he crivel esteja gozando da Bemaventurança.

125 Com a morte delRey D. Henrique começaraõ os cinco Governadores a usar do Cetro; mas taõ desunidos, temerosos, e abalados, que cada hum seguia o partido dos oppositores, a que a propensaõ o inclinava, ou talvez o attractivo do interesse. Muito mais ficaraõ perplexos, quando viraõ que ElRey D. Henrique no seu testamento naõ attendera mais que às cousas da sua alma, deixando as do Reino ao arbitrio dos Juizes.

126 O Prior do Crato, ainda que estava excluido, tornou a fomentar a sua pertençaõ; e adquirindo algum sequito de gente popular, esta o acclamou Rey em Santarem a 14 de Junho de 1580,[715] e logo passando-se a Lisboa, soltou os prezos do Limoeiro, aposentou-se nos Paços da Ribeira, começou a passar Provisões, mandar bater moeda, e finalmente a intitularse Rey, seguindo a sua facçaõ algumas Villas do Reino.

127 Sabendo ElRey D. Filippe de Castella as operações, que em Lisboa executava o Prior do Crato, despedio hum sufficiente corpo de exercito de mais de vinte mil homens,[716] e dous mil gastadores, commandados pelo grande General o Duque de Alva; e chegando a Setubal sem resistencia alguma, fez transito a Lisboa, onde alojou suas tropas junto da ponte de Alcantara. No dia seguinte, que se contavaõ 26 de Agosto de 1580, pelas dez horas da manhã atacou D. Antonio, Prior do Crato, ao exercito Castelhano; porém este desbaratou os esquadrões Portuguezes,[717] e D. Antonio se poz em salvo, passando ao depois varia fortuna até vir a morrer em Pariz no anno de 1595.

128 Pacificada algum tanto a furia dos vencedores, que naõ fez pequeno damno aos arrabaldes de Lisboa, os Governadores della entregaraõ as chaves ao Duque, o qual mandou logo presidiar o Castello com tres mil Castelhanos, e muita artelharia, e a Nobreza do Reino foy à sua presença dar obediencia ao novo Rey introduzido, que à força de armas, invadindo o Reino, decidio o litigio a seu favor, sem esperar pelo acordaõ dos Jurisconsultos contra todo o Direito, e boa consciencia.[718]

D. Filippe II. III. e IV. de Castella, e em Portugal Reys decimo oitavo, decimo nono, e vigesimo intrusos.

129 Declarado Rey de Portugal D. Filippe II. nas Cortes, que se celebraraõ em Thomar a 19 de Abril de 1581, caminhou para Lisboa, onde fez huma publica entrada com o mayor apparato, e grandeza, que até alli se tinha visto.[719] Começou a tratar os Portuguezes com muita affabilidade, e industria, fazendo-lhe varias mercês, e augmentando os privilegios do Reino, com a qual politica temperou os desgostos passados. Desta sorte fazia parecer mais suave aos Portuguezes aquella violenta sujeiçaõ, e elles vendo que se diminuiaõ as esperanças de recobrar a antiga liberdade, cuidavaõ muito em merecer a graça delRey Filippe, o qual tornando para Castella, e deixando por substituto a seu filho o Serenissimo Cardeal Alberto, Archiduque de Austria, morreo a 13 de Setembro de 1598 no Convento do Escurial, que elle havia fundado, e onde jaz em soberbo mausoleo, tendo vivido setenta e hum annos, governado em Portugal dezoito, e quarenta e tres em toda a Hespanha.