130 Succedeo no Throno seu filho D. Filippe III. e para nós II. que havia nascido em Madrid a 14 de Abril de 1578, e agora contava já vinte annos de idade. No seu governo deixou facilmente penetrar quaes eraõ os seus designios; e naõ eraõ elles outros mais que reduzir os Portuguezes a huma taõ debil fortuna, que nunca podessem ter forças para sacudir o dominio Castelhano, conforme as normas, que lhe deixara seu pay. Naõ pode porém conseguir tudo o que intentava, porque lho embaraçou a morte, que lhe sobreveyo em Madrid no ultimo de Março de 1621 com quarenta e dous annos de idade, e vinte e dous e meyo de reinado. Jaz no Convento do Escurial.
131 D. Filippe IV. foy filho do antecedente, e nasceo a 8 de Abril de 1605. Poucos dias depois da morte de seu pay começou a governar com grandes annuncios de felicidades, mas para Portugal com muy poucas; porque naõ cessando de quebrantar as promessas, e juramento, que seu Avô tinha feito de conservar este Reino em seus antigos foros, e privilegios, todo o seu ponto foy abatello, aniquilallo, e obrar tudo em nosso prejuizo. Naõ escapou artificio algum em ordem a consumir o Reino, que deixassem os seus Ministros, e Conselheiros de lhe apontar para nossa ruina. A mesma experimentou a India, e as mais Conquistas, que tanto nos custaraõ a ganhar. Dilatadissima seria a narraçaõ destas desordens, se pertendessemos renovar dellas a memoria: naõ faltaõ Escritores, que as referem.[720]
132 Impaciente já todo o Reino com tanta vexaçaõ, e desejosos todos da commum liberdade da patria, começaraõ a pôr os olhos no Serenissimo Duque VIII. de Bragança D. Joaõ, no qual concorriaõ razão, e justiça para o acclamarem Rey, e Senhor verdadeiro do Reino naõ só pelo direito, que o acompanhava de sua Avó a Senhora Dona Catharina, filha herdeira do Infante D. Duarte, a qual havia de preceder a todos os oppositores da Coroa, porque representava a seu Pay, que se vivera, havia de ser Rey,[721] mas tambem por ser o Serenissimo Duque natural do Reino, e o mayor Senhor delle, a quem por suas qualidades verdadeiramente Reaes tocava protegello, amparallo, e libertallo das oppressões, que padecia.
133 Por estes, e outros muitos fundamentos, persuadidos os Portuguezes quanto lhe era util acabarem já com taõ pezado jugo, determinaraõ ajustar o modo mais conveniente para negocio taõ arduo. Achava-se presidindo no governo de Portugal a Duqueza de Mantua Margarida de Saboya, prima delRey Filippe IV. desde o anno de 1635, em que passou a fazer assistencia em Lisboa: tinha por Secretario de Estado a Miguel de Vasconcellos, aborrecido do Reino por soberbo, descomedido, e ambicioso, que com industriosa independencia ministrava os negocios de Portugal, e a quem muito favorecia a Princeza Margarida, e o primeiro Ministro de Hespanha o memoravel Conde Duque,[722] ambos interessados na agencia de Vasconcellos, que lhes servia como de canal, por onde se enchiaõ continuamente os seus insaciaveis cofres do perenne curso de dinheiro extrahido da substancia do cabedal do Reino, e de tributos exorbitantes.
134 Esta oppressaõ, e violencia dos Ministros acabou de exasperar mais a todos os Portuguezes; até que escolhendo o dia de Sabbado primeiro de Dezembro do anno 1640 para aquella gloriosa empreza, depois de varias conferencias, que entre si tiveraõ os Fidalgos amantes, e zelosos da patria,[723] convidando tambem a outros com todo o segredo, se acharaõ no terreiro do Paço sem fazerem rumor, e assim que deraõ nove horas accommetteo cada hum aquelle posto, que se lhe destinou por interpreza. Tudo o que se havia premeditado, a pezar de todos os incidentes, que se atropellaraõ, se poz em execuçaõ no dia predito com tanta felicidade, e maravilha, que dentro em tres horas se vio na Cidade de Lisboa morto Miguel de Vasconcellos, deposto Filippe IV., acclamado o Serenissimo Duque de Bragança D. Joaõ por legitimo Senhor do Reino de Portugal, que no espaço de sessenta annos gemeo debaixo da sujeiçaõ de Principes estrangeiros, aonde o tinha levado a Providencia.
D. João IV. vigesimo primeiro Rey.
135 Conseguida prodigiosamente a saudosa liberdade do Reino, e restituido com tanta gloria, e justiça o Cetro da Monarquia Portugueza ao Senhor Rey D. Joaõ IV. o qual havia nascido em Villa Viçosa a 19 de Março de 1604, e casado com a Senhora Dona Luiza Francisca de Gusmaõ em 12 de Janeiro de 1633, se expediraõ diversos avisos para os Lugares Ultramarinos da nossa Coroa, para reconhecerem, e acclamarem o mesmo Soberano Rey; e foy esta noticia recebida com tanto gosto, como se experimentou na prompta obediencia da vassallagem, e nos vivas, e festas, com que expressaraõ todos a estimaçaõ daquella felicidade,[724] sendo para admirar completarse este reconhecimento dentro de quinze dias por todo o Reino sem guerra, sem armas, sem violencia, estando todas as Praças governadas, e presidiadas por Ministros, e soldados Castelhanos. O certo he que foy obra da maõ do Altissimo.[725]
136 Logo que o novo Rey chegou de Villa Viçosa a Lisboa, e dispoz as expedições, que temos dito, determinou dia para a sua coroaçaõ, que foy em 15 de Dezembro, a qual se celebrou com toda a pompa, e alegria do povo. Depois passou promptamente a cuidar nos negocios interiores do Reino: nomeou Ministros para os Tribunaes: Generaes, e Cabos para as Provincias. Estava o Reino destituido de forças, sem armas, sem gente com exercicio militar, sem náos, e sem dinheiro para se poder defender, e isto foy motivo para se descuidarem tanto em Castella, considerando seus Ministros ser impossivel podermos resistirlhe na conjunctura debil, em que estavamos; e assim disseraõ a ElRey Filippe, que naõ era necessario fazer guerra offensiva a Portugal, porque com duas mãos de papel firmadas por S. Magestade se reduziria outra vez brevemente o Reino à sua obediencia.[726]
137 Este mysterioso descuidoso foy causa da nossa prevençaõ, e fundamental seguranqa, dando-nos tempo para mandarmos vir armas do Norte, fortificar Praças, e fazer confederaçaõ com França, Inglaterra, Hollanda, Suecia, e Dinamarca, que todos nos ajudaraõ com gente, dinheiro, munições, e náos de tal fórma, que quando os Castelhanos quizeraõ accommetternos por Olivença, foraõ bem rechaçados, experimentando a mesma adversa fortuna em todos os choques, e batalhas, que tiveraõ com os nossos exercitos, ficando mais memoravel a de Montijo, que no anno de 1644 conseguio com tanta gloria Portugueza o intrepido Mathias de Albuquerque; e desta sorte conseguimos outras muitas vitorias em grande credito da Naçaõ por todas as Provincias do Reino.
138 Naõ causava pequena inveja a Castella este feliz progresso das nossas armas; e vendo que à força dellas naõ podia tomar vingança da nossa liberdade, maquinou a da aleivosia, e astucia, fiando mais do ouro, que do ferro; e corrompendo com elle algumas pessoas suas affectas com esperanças de mayores augmentos, se conjuraraõ contra ElRey D. Joaõ; porém descubrindo-se, foraõ prezos, sentenciados, e degolados[727] a 29 de Agosto de 1641 em publico cadafalso na praça do Rocio de Lisboa. Eraõ elles o Marquez de Villa Real, o Duque de Caminha, o Conde de Armamar, e D. Agostinho Manoel de Vasconcellos; sendo o principal motor desta conjuraçaõ o Arcebispo de Braga D. Sebastiaõ de Matos, que se mandou meter em segura custodia. Em todos estes movimentos se vio o particular auxilio de Deos, com que sempre livrou a ElRey D. Joaõ da iniquidade de seus inimigos, que intentaraõ tirarlhe a vida por meyo do perverso Domingos Leite, o qual sendo convidado a executar aquelle enorme delicto por quatrocentos escudos, foy tambem descuberto, e castigado como merecia a grandeza da sua culpa.