139 Continuando ElRey o seu governo com tanta felicidade, e desvelo, estabeleceo leys utilissimas para a sua conservaçaõ, erigio novos Tribunaes, o Concelho de Guerra, o da Junta dos Tres Estados, o do Conselho Ultramarino, e o da Junta do Commercio. Foy muito devoto do Mysterio da Conceiçaõ da Senhora, e assim a tomou por Protectora do Reino em Cortes do anno de 1646, fazendo-o tributario em cincoenta cruzados cada anno,[728] e em 25 de Março do proprio anno jurou, e declarou authenticamente a immaculada Conceiçaõ da Virgem Maria Senhora nossa, fazendo com que seus vassallos fizessem o mesmo, mandando intimar às Universidades do Reino, que todos os estudantes, quando tomassem qualquer gráo, jurassem defender o tal Mysterio.[729]

140 Finalmente achando-se em Lisboa, e opprimido com huma molesta suppressaõ, fechou o circulo de seus dias em huma segunda feira 6 de Novembro de 1656 na idade de cincoenta e dous annos, sete mezes, e dezoito dias, e de reinado dezaseis annos, menos vinte e quatro dias. Jaz no Convento de S. Vicente de Fóra.

D. Affonso VI. vigesimo segundo Rey.

141 Teria o Principe D. Affonso treze annos de idade, contados desde 21 de Agosto de 1643, em que nasceo, até 15 de Novembro de 1656, quando subio ao Throno, e foy acclamado Rey pela morte de seu glorioso Pay; mas em razão da sua menoridade ficou sujeito à tutoria da Rainha sua Mãy, a quem ElRey seu marido tinha deixado por tutora, e Governadora do Reino, que com tanta prudencia, e desvelo exercitou; porém passados seis annos, a 23 de Junho de 1662, contando ElRey dezanove annos de idade, tomou posse do governo com a formalidade costumada.[730]

142 Antes de ElRey tomar posse do governo a tinhaõ já tomado da sua vontade o Conde de Atouguia, Sebastiaõ Cesar de Menezes, e o Conde de Castello-Melhor, descançando neste ultimo o pezo dos negocios da Monarquia, e a cuja disposiçaõ se vio luzir em prosperos successos a fortuna delRey com as vitorias das nossas armas; porque fazendo Castella pazes com França, e unindo em varios corpos de exercito os bellicosos espiritos dos alliados, cercou todas as nossas Provincias com hum estrondoso poder, mas sempre ficou Portugal triunfante. Assim se vio nas celebres batalhas do Amexial, do Canal, e de Montes claros, em que os nossos Generaes acreditaraõ o seu valor, e sciencia militar.

143 Naõ correspondiaõ as felicidades da guerra ao governo politico da Corte, porque ElRey desde a idade de tres annos, padecendo hum accidente de paralysia, que lhe deixou arida toda a parte direita do corpo, o mesmo defeito padecia naquella parte interior da cabeça: daqui se originaraõ varios excessos, e desordens, com que desgostou muito sua Mãy prudentissima, e a todo o Reino; e como o principal motor destas indignas acções era hum Antonio Conti, pessoa humilde, mas muito de seu agrado, que lhe inspirava perniciosos conselhos, de algum modo se lhe fez applacar os exercicios escandalosos com o degredo de Conti para a Bahia.

144 Determinou-se o casamento delRey com a Princeza Maria Francisca Isabel de Saboya, a qual chegou a Lisboa em 2 de Agosto de 1666, e naõ se passando muito tempo, que experimentando a Rainha a incapacidade delRey para as obrigações do thalamo, e que muitas vezes lhe faltavaõ aos respeitos de Rainha, resolveo recolherse no Mosteiro da Esperança a 2 de Novembro de 1667, e de lá começou a tratar a nullidade do matrimonio. Logo que se começou o litigio, se teve por certa a sentença da separaçaõ, e com este fundamento os zelosos da successaõ Real propozeraõ ao Serenissimo Infante D. Pedro devia casar com a Rainha pelas razões forçosas, que allegaraõ,[731] e que para evitar mayores damnos na Monarquia avocasse a si o governo.

145 Assim se conseguio, porque ElRey D. Affonso dimittindo o regimen, ficando conservando a magestade na pessoa, mas naõ no exercicio, foy recluso em hum quarto do Paço a 13 de Novembro de 1667, e o Infante D. Pedro foy jurado Principe Regente, e herdeiro da Coroa nas Cortes de 27 de Janeiro de 1668. Passaraõ depois a ElRey D. Affonso para o Castello da Ilha Terceira, onde esteve seis annos, no fim dos quaes veyo para os Paços de Cintra, onde faleceo a 12 de Setembro de 1683, e jaz no Convento de Belem.[732]

D. Pedro II. vigesimo terceiro Rey.

146 Em quanto ElRey D. Affonso foy vivo, não quiz o Serenissimo Principe D. Pedro seu irmaõ outro titulo, que o de Regente do Reino, cujo encargo tomou pelos repetidos rogos de seus vassallos; mas tanto que faleceo D. Affonso, foy conhecido pelo soberano titulo de Rey D. Pedro II. Havia nascido em Lisboa a 26 de Abril de 1648, e se achava já na idade de trinta e cinco annos ao tempo da morte de seu irmão. Como a nullidade do matrimonio entre ElRey D. Affonso, e a Rainha Dona Maria Francisca de Saboya foy julgada, e em virtude da sentença se alcançou Breve para se receber o Principe com a Rainha, de cujo consorcio naõ houve outro fruto mais que a Senhora Dona Isabel, e a Rainha tinha espirado a 17 de Dezembro de 1683, foy preciso que ElRey passasse a segundas vodas para segurar a sua Real descendencia.