4 Esposende, que dista de Viana tres leguas para o Sul. Nesta barra, onde desagua o rio Cávado, naõ ha surgidouro capaz de embarcações grandes, porque de maré cheya naõ tem mais que duas braças escaças de agua, e assim só caravellas lhe frequentaõ o porto. Corre o rio Cávado por entre a Villa de Esposende, e o Lugar de Faõ, ficando aquella para a parte do Norte, e este do Sul. Defronte deste Lugar, quasi meya legua da barra, estaõ huns penhascos, que correm de Norte a Sul hum quarto de legua em tres fileiras, a que os mareantes chamaõ Cavallos de Faõ, entre os quaes, e a terra podem bordejar navios, pois tem cinco, ou seis braças de fundo em preamar. O Author da Corografia Portugueza tom. 1. pag. 310. diz, que este era o porto, em que se carregavaõ de ouro as frotas delRey Salamaõ, àcerca do qual veja-se tambem a Antonio de Sousa de Macedo nas Flores de Hespanha cap. 4. excel. 2. O mais certo he, que foy este o porto, donde sahiaõ as armadas dos Romanos para fazerem as suas conquistas. Vindo caminhando para o Sul o espaço de tres leguas, segue-se a
5 Villa do Conde. Dá entrada a esta barra a foz do rio Ave, porém estreita. Na boca da barra tem hum forte de cinco baluartes delineado pelo insigne Engenheiro Italiano Filippe Tersio. Daqui vay correndo a marinha até o
6 Porto, quatro leguas para o Sul, deixando neste caminho o porto de Leça, ou de Matozinhos. Faz nesta barra sua foz o rio Douro, e fica distante da Cidade meya legua. Ha na barra duas lages, huma da parte do Norte, e outra do Sul, por entre as quaes he a carreira ordinaria de entrar, e sahir, mas ha de ser com tres quartos de agua cheya, sendo navio grande, e entrando de Veraõ; porque de Inverno sempre he perigosa pela mayor quantidade de arêas, que se ajuntaõ. Perto da entrada da barra para a parte do Norte está o Castello de S. João da Foz em quadro prolongado; consta de quatro baluartes pequenos. Hum dos seus lados estreitos, que olha ao Poente, cahe sobre o mar, e no outro lado opposto está a porta cuberta com hum pequeno revelim. Aqui se termina a Provincia do Minho; e continuando da barra do Porto sempre para o Sul o espaço de dez leguas, se encontra a primeira barra da Beira, que he
7 Aveiro. Desagua aqui o rio Vouga, e fica a barra distante da Cidade tres leguas: he larga na boca, e chega a ter em preamar vinte e quatro palmos de agua de alto, porém he mudavel, por ser de arêa. Corre da ponta da barra até a Villa de Ovar hum canal profundo pela distancia de sete leguas, e retalhando a terra com varios braços, e esteiros no ambito de quinze leguas, se reparte em muitas peninsulas, e lizirias, onde se fabricaõ marinhas de sal clarissimo, e se cultiva todo o genero de lavoura. Proseguindo o espaço de oito leguas ao Sudoeste, encontramos a barra do
8 Mondego. He na entrada baixa, e para dentro montuosa. Na boca da barra para o Norte está o forte de Santa Catharina, e fora do forte meya legua na Costa fica a Villa de Boarcos, onde tambem ha surgidouro com seis, ou sete braças de fundo de arêa. Na distancia de dez leguas tambem para o Sudoeste segue-se já na Provincia da Estremadura a
9 Pederneira. He enseada pequena, onde só entraõ patachos, e caravelas. Para a parte do Norte está na eminencia do monte a Igreja de Nossa Senhora de Nazareth, imagem milagrosa, e bem conhecida pelo concurso de muitas romagens. Daqui pela mesma linha a pouco espaço de duas leguas está
10 Selir, pequeno porto. Verdadeiramente esta barra pertence à Villa de S. Martinho, e está entre duas serras de grandes penhascos, por onde entra hum braço de mar, que pela parte da terra faz huma enseada, que terá meya legua de circuito, onde se abrigaõ caravelas, e patachos. De Selir, continuando a Costa para o Sudoeste cinco leguas, segue-se
11 Peniche, onde tambem chamaõ Cabo de Carvoeiro. Fica, estando a maré cheya, a modo de peninsula, donde tomou o nome. Da banda do Norte he terra baixa, e do Sul he onde tem o surgidouro em seis, ou sete braças de fundo. Duas leguas para o Oeste do cabo de Peniche estaõ duas Ilhas pequenas com muitos penhascos ao redor, a que chamaõ as Berlengas, onde ha a fortaleza de S. Joaõ. Do cabo de Peniche para o Sul, caminhando onze leguas, está a Ericeira, e a pouco espaço o Cabo da Roca. Para diante mais duas leguas está Cascaes, onde ha capacidade de se dar fundo, pois tem dezoito até vinte braças de alto. Daqui proseguindo interposto o espaço de duas leguas, se encontra o famoso porto de
12 Lisboa. Esta barra, onde desemboca o Tejo, está no meyo de duas fortalezas, chamadas vulgarmente de S. Giaõ, ou Juliaõ, e S. Lourenço, ou Torre do bogio, que outros dizem Cabeça seca, em distancia huma da outra de 980 passos geometricos de sete palmos e meyo cada passo. Em tempo do insigne Geografo Estrabo tinha a boca desta barra 2500 passos; agora se tem estreitado muito mais, e por causa dos cachopos, que existem no meyo della, se faz difficil a entrada, a qual se divide em dous canaes: o que toma por entre os cachopos, e a fortaleza de S. Giaõ, chama-se canal da terra, e he perigoso: o que vay por entre os cachopos da Trafaria, e a Cabeça seca, ou fortaleza de S. Lourenço, chama-se carreira da alcaçova, e he a mais segura, porque tem 500 braças de largo, e 9 de alto com bom fundo. Entrando pela barra dentro, a duas leguas se vê a formosa torre de Belém, obra delRey D. Manoel, fundada 200 passos sobre o Tejo; e continuando a pequena distancia de huma legua da parte do Norte, se vê a grande Cidade de Lisboa: mas como o Tejo fórma aqui o mais famoso porto do mundo, e hum grande seyo, fazendo-se navegavel no espaço de vinte leguas, posto que naõ continue na mesma largura, daremos noticia de todos os portos, que ha desde a barra para dentro do Tejo de huma, e outra parte.
| Portos do Tejo da parte do Sul. | Portos do Tejo da parte do Norte. |
|---|---|
| Trafaria. | S. Giaõ. |
| Portinho de Costa. | Oeiras. |
| Torre velha. | Caxias. |
| Porto brandaõ. | Carcavelos. |
| Manatega. | Paço d’Arcos. |
| Alfansina. | Cartuxa. |
| Arrabida. | Boa Viagem. |
| Arialva. | Santa Catharina. |
| Fonte da pipa. | Pedrouços. |
| Cassilhas. | Belém. |
| Caramujo. | Junqueira. |
| Motella. | Santo Amaro. |
| Oliveirinha. | Alcantara. |
| Corroyos. | Pampulha. |
| Santa Martha. | Santos velhos. |
| Talaminho. | Caes do Tojo. |
| Amora. | A Dizima. |
| Rio dos Judeos. | Remolares. |
| Arrentella. | Corpo Santo. |
| Seixal. | Caes da Pedra. |
| Rosario. | Alfama. |
| Porto dos PP. Paulistas. | Caes do Carvaõ. |
| Aldeya. | Bica do Sapato. |
| Cabo da Linha. | Santa Apollonia. |
| Coina. | Cruz da Pedra. |
| Fornos delRey. | Madre de Deos. |
| Palhaes. | Xabregas. |
| A Telha. | Grilo. |
| A Verderena. | Beato Antonio. |
| Barreiro. | Poço do Bispo. |
| Lavradio. | A Martinha. |
| Barra a barra. | Braço de prata. |
| Alhos vedros. | Cabo rubo. |
| Moita. | Unho de D. Garcia. |
| Esteiro furado. | Marvilla. |
| Sarilhos grandes. | Olivaes. |
| Sarilhos pequenos. | Sacavem. |
| Aldeya Galega. | Aqui desagua este rio no Tejo por huma grande boca, fazendo huma profundissima foz; e ficando quasi ao Norte da Cidade,volta contra o Noroeste, onde se encontraõ os vistosos portos de Unhos, Frielas, Mealhada, Granja,Marnotas, Santo Antonio do Tojal, &c. Continuando pela marinha direita, segue-se: |
| Lançada. | |
| Quinta de D. Maria. | |
| Samouco. | |
| Alcouxete. | |
| Barroca d’Alva. | |
| Pancas. | |
| Çamora Correa. | |
| Benavente. | |
| Salvaterra. | Massaroca. |
| Escaroupim. | Santa Iria. |
| Mugem. | Povoa. |
| Santa Martha. | Alverca. |
| Almeirim. | Alhandra. |
| Chamusca. | Villa-Franca. |
| Pinheiro. | Póvos. |
| Moita. | Castanheira. |
| Barca. | Villa-Nova. |
| Brito. | Azambuja. |
| Santa Margarida. | Casa branca. |
| Crucifixo. | Valada. |
| &c. | Porto de Mugem. |
| Santarem. | |
| Azinhaga. | |
| Labruja. | |
| Cardiga. | |
| Barquinha. | |
| Tancos. | |
| Payo de pelles. | |
| Praya. | |
| Punhete. | |
| Redemoinhos. | |
| Abrantes. |