153 Pomponio Mella, e Hermoláo Barbaro dizem, que se chamou Belion e depois Lethes. Assim cantou o mellifluo Bernardes na Eglog. 7.

Junto do Lima claro, e fresco rio,
Que Lethes se chamou antigamente.

A causa deste nome Lethes, que significa esquecimento, foy pela sabida desavença, que entre si tiveraõ os Celtas, e os Turdulos nas passagens das suas margens, chegando a alterarse em fórma, que mataraõ seu General, de cujo delicto envergonhada a gente, determinaraõ logo ausentarse, impondo ao rio hum nome de esquecimento, para que ficasse desvanecida, e sepultada a memoria de semelhante insulto.

158 Assim permaneceo este nome expressivo do successo, e proprio ao idioma dos Turdulos. Vieraõ depois os Gregos, e os Latinos, e perdida já a noticia do vocabulo, mas naõ do acontecimento, que por tradiçaõ perseverava, se contentaraõ de lhe chamar rio Lethes. De tudo vimos a concluir contra a persuasaõ vulgar, que ainda que o nosso rio Lima fosse em algum tempo chamado Lethes, nem por isso tem dependencia com o Lethes fabuloso dos antigos, de que fallaõ os Authores abaixo;[235] porque este nome Lethes se acha imposto a outros rios illustres, como diz Claudiano:[236] e todos os rios, que tem adquirido semelhante nome, he porque houve nelles motivos, ainda que incognitos, de especial esquecimento, e taes saõ os que sinala Estrabo[237] em Macedonia, e em Candia, sem que por este principio haja dependencia, que faça perverter o certo com o fabuloso.

159 Porém se nos argumentarem com o caso dos Romanos referido por Lucio Floro,[238] que chegando às prayas deste rio, repugnaraõ atravessallo, crendo que se esqueceriaõ das suas patrias, porque estavaõ persuadidos era elle o verdadeiro Lethes; respondemos, que este conceito era futil, e aerio; pois Junio Bruto, Proconsul, que os governava, para lhes offuscar o panico terror, que os surprendia, passou-se da outra parte do Lima, e de lá recitou muitas cousas particulares de Roma, para que vissem ser falso que aquelle rio fazia esquecer, pois elle atravessando-o, se lembrara do seu Paiz, e dos successos anteriores: e como adverte Adaõ Ruperto, commentando Lucio Floro, toda aquella repugnancia dos Soldados nasceo da infamia do nome, que lhes offerecia o rio, e naõ de causa, que nelle houvesse para produzir o esquecimento; no que tambem se conforma Isacio Vossio, commentando a Mella pag. 229. contra cujo parecer, mas sem fundamento, está o famoso Caramuel, que no Prologo do seu Filippe Prudente, fallando do Lima, attribue às suas aguas serem nocivas à memoria, e que daqui se occasionara a fabula. O certo he, que este rio corre com tal brandura, que naõ só parece que corre esquecido de correr, mas que faz esquecer os olhos, que o vem, de que o vissem correr alguma hora, como galantemente disse D. Francisco Manoel em huma das suas cartas, e o imitou nosso insigne Botelho, e o Padre Reys.[239]

160 Liria. He ribeira de Castellobranco.

161 Lis. Nasce no termo de Leiria no Lugar das Cortes, que fica numa legua distante da Cidade. Rodea-lhe o Castello, e deixando a Cidade, e o Castello à maõ esquerda, vay dobrando contra o Norte, onde estaõ os arrebaldes da Cidade, até se ajuntar com o rio Lena.

161 Lixosa. Nasce esta ribeira na serra de S. Mamede, donde vem circulando pelo espaço de huma legua ametade dos pomares de Portalegre, fazendo trabalhar os seus moinhos, e lagares. Toma o nome de Lixosa, porque passa por huma quinta assim chamada. Dahi a duas leguas entra pelo Crato, onde tem ponte de nove arcos, e se lhe ajuntaõ os ribeiros de Linhares, e Xocanal. No fim de quatro leguas passa pela Villa de Seda, onde toma este nome; e caminhando tres leguas se incorpora com as ribeiras da Fronteira, e Sarrazola para entrar em Aviz mais opulento. Todas estas correntes quando chegaõ à cerca dos Freires, fazem hum grande pégo, a que chamaõ do Barco, e dahi por diante fica sendo huma só ribeira com o nome de Aviz. Finalmente entra no Tejo com o nome de Sorraya depois de ter enriquecido as suas margens com abundancia de peixes, especialmente de saveis, que no mez de Mayo se mataõ à espada.

163 Lobos. Ribeira, que nasce na serra do Lugar de Bornes, termo de Bragança; e tendo caminhado tres leguas, entra no rio Tua junto a Mirandella.

164 Lousaõ. He huma ribeira no termo da Villa de Thomar da parte do Meyo dia, que rega huma formosa, e amena planicie.