Espantosa, de grandes rodas espessas, ferragens desconjuntas, tecto esboracado, tinta bexigosa, puxavam-a dois cavallos brancos,{172} magros, muito magros, de joelhos grossos, orelhas cahidas, choutando sem brio, coxeando dolorosamente, com um ar de philosophos sem ração a caminho da morte.
Atraz saltava a carruagem com um tinir de ferragens, soturno como um ranger d'ossos em dança macabra. E eu encostava aos vidros da janella a testa ardendo com febre, para ver a passagem d'aquellas duas velhinhas sympathicas, irmãs decerto, gemeas talvez, tão eguaes, com os cabellinhos bracos alisados sobre as testas enrugadas, as boccas reentrantes, os olhinhos apagados, tremulas, encolhidas como passarinhos com frio, com os mesmos fatos de luto, o mesmo ar tranquillo, o mesmo sorriso de bondade. Macrobias á espera que a morte viesse n'um beijo perfumado cerrar-vos para sempre os olhos, como devieis soffrer, cabeceando, sacudidas, empurradas brutalmente uma contra a outra pelas mollas duras, aos safanões das sob-rodas da calçada! Boas velhinhas, minha paixão unica, minha esperança d'um{173} dia inteiro, quando eu vivia isolado com a minha melancolia, n'aquella casa onde o vento soprava tristezas, onde o sol nunca entrou e onde as corujas riam de noite!
O cocheiro, um velho muito velho, corcovado, segurando tremulamente as redeas, com as mãos pousadas sobre os joelhos, conservava um certo ar de casa nobre, apezar da nodoa esverdinhada, que se alastrava nas costas da sobrecasaca, e do chapéo de furta-côres, pequeno, de abas largas, arrombado, sem pêllo, com um velho galão todo oxidado, velho, muito velho, d'outros tempos muito melhores.
Que volta misteriosa dava todos os dias aquella carruagem, que ás tardes ali passava trepando pela calçada? D'onde vinham, para onde iam, em que palacio ou castello arruinado moravam as boas velhas? Quem eram? Nunca o soube.
E era talvez por isso que as amava tanto. Architectava historias fantasticas a respeito d'ellas, da carruagem, do cocheiro, dos cavallos,{174} e, quando por fim ouvia o rodar pesado e o tinir das ferragens, sentia o coração pulsando rapido, a respiração difficil, um calor nas faces, como se em vez da decrepitude a caminho do cemiterio, fosse uma primavera cheia de flores e de mocidade, que ali passasse em grande aureola de luz, em nuvem subtil de perfumes.
Creio que as velhinhas, n'uma doce, apagada recordação de galanteios havia muito passados, adivinharam o meu amor, e olhavam para mim, risonhas, fazendo renascer faiscas nos olhos côr de cinza, que um sorriso bordava com ondas de preguinhas por cima das rugas! E eu, com a testa encostada ás vidraças, via desapparecer a carruagem fantastica, emquanto a noite descia lentamente e, muito desafinados, piavam lá no alto, em doidas correrias, os negros andorinhões.
Boas, santas velhinhas, benza-vos Deus!
A calçada subia em linha recta, tendo por fundo o céu ainda vermelho, áquellas horas.{175} A carruagem levava uns cinco minutos até chegar ao alto, e lá em cima, esfumada pela distancia, com as grandes rodas salientes, tombadas para fóra, similhava uma grande borboleta negra, que a descida precipitava na rutilante fogueira do pôr do sol.
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Pouco depois accendiam-se no céo muito pallido as primeiras estrellas. Então um doido, que morava no rez do chão, começava a uivar sinistramente e pela casa espalhava-se um cheiro intenso, um fumo suffocante d'ervas, que a irmã queimava por conselho d'uma bruxa, entre rezas plangentes, arrastadas, de arrelia.