Pessimista bilioso, mal com a vida, fugira de parentes e de amigos, e ali vivia isolado, merencorio, cheio de azedumes, n'aquella rua onde os casebres em ruinas se alinhavam tristemente, com vidros esverdeados, telhados cheios de corcovas, paredes desaprumadas,{176} com ervas crescendo junto aos muros em que as osgas aqueciam ao sol os dorsos escamosos.
E dava-me bem n'aquella paizagem cuja musica harmonisava com as minhas queixas, n'aquelle scenario que havia procurado e emfim descobrira, onde arrastava as minhas preocupações, os meus desvarios, na prisão voluntaria que escolhera e me era cara á força de melancolica, que eu amava porque me era hostil.
Ao meu odio pela gente e pelas coisas, uma só coisa escapára—aquella carruagem a desconjuntar-se, pyrilampo nas trevas da minha noite, nota suavissima no concerto da minh'alma.
Tão egual era sempre a dôr que me atormentava, tão parecidos rodavam meus dias, que o verão passou, sem que, olhando para traz, eu pudesse ver na estrada, que andei triste, o marco d'uma alegria, d'um aspecto novo, d'uma miragem na vida.
Aquelle amor, aquella quasi paixão, que{177} ao principio as velhinhas me haviam inspirado, esse mesmo sentimento purissimo affligia-me agora, á medida que o sentia crescer.
O tempo fôra passando, e os cavallos cada vez choutavam menos, coxeavam mais, mais brancos, mais tisicos, mais dolorosamente meditabundos; o cocheiro mais corcovado, um pouco descahido na almofada, deixava pender o chicote; a carruagem tinha na frente umas tiras de papel sobre um vidro rachado; cordas, a que todos os dias se juntava um nó, ligavam os arreios; as velhinhas tinham menos palhetas doiradas no olhar, quando me sorriam. E já me sorriam como a pessoa conhecida, que occupasse na vida d'ellas o logar em que moravam na minha, o que augmentava a minha tristeza.
Agora, cada vez que lá no alto da calçada se afundava a carruagem, ficava scismando se teriam desapparecido de uma vez todos os meus sonhos, tudo—que era sómente aquillo—quanto á vida me prendia.{178}
O verão, muito lentamente, assim foi rodando, até que vieram as primeiras chuvas.
Que tarde turbida e melancolica! Se não viessem...! E de tanto pensar n'ellas, vi qual era sua pousada na minh'alma. Se não viessem...! Dia immenso em que, cheio de inquietações passeei pelo quarto até entontecer, approximando-me da janella a cada instante, vendo apenas na solidão da calçada a chuva a cahir, a cahir, rio enorme, que se despenhava até lá abaixo, rolando barrento, cheio de espuma, quebrando-se, saltando sobre as pedras arrancadas, bi-partindo-se lá no fundo, desapparecendo na curva e galgando as escadinhas, onde se precipitava em cascata, com uma bulha monotona...
O doido, a quem a meia escuridão d'aquelle dia exacerbára a furia, torcia-se, berrava como um possesso; e logo de manhã espalhou-se pela casa o tal cheiro que eu detestava, de alfazema queimada, de alecrim e d'outras ervas com que o demonio embirra.{179}