Dia immenso, que me parecia não dever acabar!

Na minha imaginação exaltada via, como de então para cá vi sempre, um ente unico n'aquella carruagem, com as donas, os cavallos, o cocheiro, como se uma só alma os animasse a todos, não podendo desligal-os, abstrahir d'uns para só pensar nos outros.

O dia vinha descendo e, ancioso, sentindo pelo ser fantastico que me fazia pulsar o coração, aquelle fervoroso amor, que os encarcerados dedicam ás vezes a uma formiga, a uma aranha, a uma plantasinha qualquer, com as unhas cravadas na carne do peito, tive uma das mais doidas alegrias da vida, quando senti sobre a lama que se alastrava de lado a lado, o rodar lento, abafado, por que suspirava semi-doido.

Os cavallos gemiam, suavam, lançando pelas ventas baforadas densas. As sob-rodas, occultas pela lama e que o cocheiro não evitava, cego pela chuva que o zurzia, faziam cambalear o trem como um ebrio. E{180} lá dentro mal pude avistar, atravez dos vidros embaciados, as velhinhas que sorriam.

Abri a janella para as ver desapparecer. Julguei que nunca chegassem ao alto. O cocheiro com um gesto afflicto brandia o chicote; os cavallos pegavam-se, ajoelhavam na lama; as molas estalavam.

Chegaram finalmente. Disse-lhes um adeus maguado. E emquanto a noite descia, sentado junto da janella, parecia-me ver, como n'um sonho, a carruagem fugindo, fugindo, por uma estrada que não acabava nunca, levando no tejadilho, de pé, como os anjos dos coches de enterro, a figura da morte. E a chuva cahia, cahia, e a noite embrulhava-se n'um véo muito negro, cheia de frio.

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* *

Nunca mais as vi.

Passaram-se mezes. Na terça feira de entrudo uns mascarados bebados, que desciam pela calçada, traziam adiante aos pontapés,{181} em grande troça, um chapéo de furta-côres, pequeno, de abas largas, arrombado, sem pêllo, com um velho galão todo oxidado, velho, muito velho...

Boas e santas velhinhas!