Requiem æternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis.{182}

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[AS ESTRELLAS DO CEGO]

Noite de Natal.

Terminára a missa. Repicavam sinos e o povo descia alegre os degráos em ruina da larga escadaria.

A noite era cheia de estrellas, luzes d'altar immenso sob o immenso docel de velludo azul. O céo muito frio parecia rir-se, a piscar os olhinhos alegres.

Ainda nos eccos da alta abobada em berço{184} resoavam os ultimos cheios do orgam do convento. Pela porta aberta de par em par, onde a multidão se acotovelava á sahida, vinha de dentro da egreja um perfume religioso de flores, de fumo de incenso, de cera queimada.

O altar reluzia ao fundo, e as luzes inquietas enchiam de zig-zagues rutilos as lentejoulas e os fios de seda nos mantos bordados da Santa Familia e na colxa de damasco do berço pequenino, em que o Menino Jesus dôrmia.

Tocavam sinos, e os repiques, como foguetes, subiam pelo ar denso da noite fria, entre a algazarra do povo, massa escura caminhando pela noite escura. A larga frontaria da egreja, comida pelo tempo, abafada n'um velho tapete de musgo, sobresahia no céo em mancha muito negra, d'onde jorravam feixes luminosos, ondas de harmonias, luz e canticos de triumpho.

Um pequeno desceu a escada levando um cego pela mão.{185}