Iam fechar-se as portas. Sahiam os ultimos devotos.
O cego era um velho corcovado, tremulo, com a face cheia de rugas crusadas, como um pedaço de papel amachucado. Os olhos sem luz voltava-os para o céo, meneando a cabeça constantemente, como se procurasse... o quê? E sorria. Dava a mão ao petizinho e descia os degraos tacteando-os com o pé.
—Ainda mais um, avô... E outro... E outro.
Fechou-se a egreja. O candeeiro da esquina mal alumiava o adro.
E o cego sorria e afagava a mão do pequeno.
O povo espalhou-se pela ruas. Eram como estilhaços de alegria por toda a cidade.
Vinha a gente descendo pelos beccos angulosos, pelas travessas em declive rapido. E parecia que todos levavam n'alma um pedaço de luz d'aquella noite em Belem cantada nos evangelhos, da alegria d'aquella{186} musica ouvida no templo, quando os sinos repicaram e o côro entoou o Gloria in excelsis! Todos falavam, todos riam, muitos cantavam. Era a ceia prompta em casa, era o dia seguinte todo elle inteirinho de descanço!
Noite de Natal! Noite de Natal!
E eu fui por ali abaixo tambem, atraz do cego.
O pequenito teria oito annos. Loiro. D'olhos azues. Olhava para as estrellas a rirem lá em cima.