Os olhos tinham a côr do céo, e o que n'elles brilhava tanto podia ser o reflexo das estrellas como a luz placida da sua almasinha.
Caminhavam os dois por ali abaixo e conversavam. Á voz tremula do velho replicava compassadamente o pequenino. E o que elle dizia com a sua vozita infantil, linda como um trinado, devia de soar aos ouvidos do avô ainda como um cantico, como se um anjo d'aquelles, que haviam aos pastores annunciado a vinda do Senhor, houvesse{187} ficado na terra; porque o cego continuava sorrindo, e, a descer pelos beccos escuros e tortuosos, afagando a mão do netinho, fitava os olhos condemnados ás trevas lá em cima, lá muito em cima, d'onde vinha aquella luz toda, que alegrava os olhos da criança.
Conversavam os dois contentes. Eu ouvia bocadinhos do que diziam, palavras soltas, por onde, mais ou menos, reconstituia a conversação.
Esperava-os em casa a mãe do pequeno, filha do cego. Os dois levavam fome. A mulher ficara em casa fazendo a ceia. E ao velho ouvi dizer, uma ou duas vezes, gulosamente:
—A canja.
E o pequeno:
—Degráo, avôsinho.
E o cego, muito attento, vagarosamente, tacteava o degráo com o pé, afagando a mão do neto, cantarolando.
Pelos beccos, pelas travessas, sob os arcos{188} dos pateos irregulares, cheios de sombras, disseminara-se a gente. Iamos agora sós, nós trez, n'aquelle caminho.
Ouviam-se ainda passos ao longe, eccos de vozes, uma ou outra guitarra em lojas fechadas, onde brilhavam as frinchas das portas; de quando em quando, um bater de palmas ao guarda nocturno, passos correndo, um tinir de chaves. Um gallo cantou n'uma trapeira.