—É tarde, disse o velho.

Caminhavam mais depressa agora.

E eu ia andando atraz d'elles, sem saber bem porquê, atrahido talvez pela doçura do quadro, pelo encanto do grupo, pela meiguice das vozes, por ver tanta alegria onde tanta miseria se cuidava, tanta paz nas almas, onde tanta dôr devia de suppôr-se.

Passei-lhes adeante. Esperei junto de um candeeiro. Queria ver-lhes ainda uma vez os rostos.

O cego continuava a olhar para o céo, meneando a cabeça. O pequenito ao lado,{189} agora que na rua tinham acabado os tropeços, olhava para onde olhava o cego.

A cabelleira loira, toda em anneis, não lhe cabia dentro do chapéo e cahia-lhe, revolta, pela testa, ao longo das faces, pelas costas.

Era lindo, lindo! E o cego, que o não via, continuava a sorrir!

Deixei-os passar adeante.

A rua alargava-se entre casarias irregulares. Caminhavam mais á vontade agora, mas tinham-se calado. Culpa talvez da minha indiscrição.

Faziam ecco no silencio da noite os nossos passos sobre a calçada, na rua deserta.