Pararam. O velho bateu cinco argoladas á porta de uma casa esguia, com grades de madeira nas janellas cheias de vasos. Passados poucos segundos, ouviu-se a pancada violenta do trinco puxado com força desde lá de cima.
O cego e o pequeno desappareceram na escuridão da escada. A porta bateu com estrondo.{190}
Ouvi ainda o velho cantarolando, emquanto subia. Pouco a pouco a voz sumiu-se. Encostei o ouvido á fechadura: uma bulha de passos apagando-se, mais e mais, a cada volta da escada; uma voz muito alegre—devia de ser a da mãe do pequeno recebendo-os—palavras que não percebi... E fechou-se lá em cima uma porta.
*
* *
Então passei para o outro lado da rua e fiquei-me a olhar para aquella casa.
Era noite de Natal, noite de festa, noite cantada pelos poetas. Talvez as cordas da minh'alma vibrassem ainda em unisono com os cantos d'aquellas vozes tão devotas, singelamente entoados por detraz das grades do côro, hymnos muito simples ao Deus Menino nascido.
No céo de immaculada pureza as estrellas vibravam raios de luz intensissima. Fazia frio.{191}
E eu quedava-me a olhar para aquella casa, tão pobresinha, tão velha, tão escura, tão cheia de flores d'alto a baixo!
Uma janella no telhado illuminou-se.
Começava a ceia do velho. Eu reconstituia o grupo dos trez: a mesa encostada á parede na trapeira muito baixa, o velho aspirando os perfumes da sopa, a terrina sobre a toalha muito branca, o pequeno defronte do avô, e a mulher a sorrir-lhes, ouvindo-lhes as historias, o throno, o presepio, a missa, o canto das freiras, a vinda por ali abaixo a horas mortas, a minha perseguição.