Encaminhei-me vagarosamente para casa.

Havia tantas estrellas no céo! Como era linda a noite de Natal! Como tinha razão o pequenito dos cabellos loiros de olhar para as estrellas! Que quantidade de luz! Tantas! Tantas!... Talvez o pequeno se lhe{193} mettesse em cabeça de contal-as! Houve uma, quando vinhamos pela travessa abaixo, que passou correndo, deixando um rastro muito longo... Era como a estrella dos Reis Magos. Que luz não tinham os olhos do pequenito! E o cego sorrindo ao pé d'elle, com os olhos tenebrosos postos no céo! Porque? É que se lhe voltavam para lá os olhos d'alma, é que na alma tinha elle mais luz do que o pequeno nos olhos.

E vejo-os ainda a descerem pelos beccos, o velho meneando a cabeça, o pequenito a dar-lhe a mão? Degráo, avôsinho? ambos com os olhos no céo, a estrella a correr...

Que lindas estrellas vê o cego!{194}

{195}

[OS NETOS]

Andavam todos pasmados, a falar baixinho pelos cantos.

O D. Affonso parecia outro!

Se fosse um Affonso qualquer!... mas o Dom, o quarto, o do Salado!... Quem jámais o vira assim de olhar tão doce na sombra do supercilio carregado, de riso tão lhano sob as enormes barbas patriarchaes, honradas entre as mais honradas dos affonsinos?{196}

O Coelho, que, havia muito, andava tramando o crime, até disse baixinho ao Pacheco:—«Ali ha coisa!» O Pacheco já a farejára, olha quem! E entretanto, o D. Affonso, todo fóra dos eixos costumados, dizia graças, quando passava alguma dama a rojar sedas na peugada da linda Inez.