E respondia tão distrahido, tão fóra do sentimento, que todos, pasmados, diziam:
—O D. Affonso... ali ha coisa!
Corriam-lhe pelas faces uns arripiosinhos, impaciencias perceptiveis sob as enormes barbas todas brancas, fazendo-lhe tremer as{201} azas do nariz e os cantinhos das fartas sobrancelhas.
O filho, o D. Pedro, com voz de trovão, arrancava do peito as ultimas exclamações e afastava-se a largos passos para ir pegar em armas. A côrte, attonita, afflicta, corria para a vasta janella rendilhada para ver o desgraçado amante atravessar os pateos, chamar os seus, com elles dispor a vingança. Era então que o velho heroe do Salado, desgraçadinho, cheio de lagrimas na voz, com o coração dilacerado, deante do corpo inanimado da linda Inez, havia de soluçar altissimas philosophias sobre a vaidade das vaidades, o peso d'aquella corôa sobre as cans, d'aquelle sceptro nas mãos decrepitas.
—A canja, a canja! pensava elle.
E ainda o ecco murmurava os últimos gemidos d'aquelle diabo de tragedia, e já o D. Affonso galgava a quatro e quatro os degráos da escada, sem corôa, sem sceptro, sem barbas, respondendo ao contra-regra,{202} que o chamava para ir agradecer os applausos da claque:
—Vão para o diabo!
E, meia hora depois, que alegria!
Quando chegou a casa, em volta da mesa, a filha, o genro, os tres netinhos, todos a cantarem o hymno da carta:—Tchim! Tchim!... Taratatchim! Taratatchim!
Que bem que cheirava a canja!