Aquella noite de Natal havia de ser falada!{203}

[A BURRINHA BRANCA]

Meu avô tinha uma burrinha branca, que parecia um macho.

Era branca e lustrosa como um cotãosinho de serralha, esbelta, com as mãosinhas muito finas, viva, com as orelhitas muito curtas. Uma estampa.

Quando o avô sahia n'ella, não havia general em campo de batalha que mais garboso se apresentasse. Tic-tic!—lá iam os dois pelos caminhos. Vinham as mulheres ás portas e era um côro:{204}

—Benza-te Deus, burrinha!

É que tinha uns modos que prendiam o olhar de todos.

Homens havia que embirravam com o avô, por causa d'aquella fortuna, e diziam ao vel-os:

—Raios os partam!

Mas o velhote não cuidava de mulheres, despresava invejosos e só pensava na burra.