Chamava-se Pomba, pomba por dentro e por fóra, tão branquinha d'alma como de pêllo.
Muito meiga, quando o avô lhe levava a ração, esfregava n'elle a cabeça, mexia as orelhas e dava ao rabo, que é o modo por que os burros fazem festas á gente. O avô dava-lhe beijos.
Por todas essas aldeias, nunca vi gato nem cão, animalzinho mais querençudo.
Assim passaram muitos mezes de muita paz e socego.
Lá o nosso visinho sapateiro é que se mordia de inveja. De amarello que era fez-se verde, de magro um trinca-espinhas. Era{205} dono d'um cavallinho lazão, coxo, pelludo, calçado de tres pés e bebendo em branco.
Pois ainda queria comparar o diabo do homem!...
Ora isto da malha branca da testa correndo pelo focinho até ao beiço é de mau agoiro. Diziam os moiros que os cavallos assim marcados tinham na cabeça a mortalha do cavalleiro. Até onde seja verdade não sei; mas vi mais d'uma vez o lazão aos coices nas estrellas e o sapateiro no chão com as costellas amolgadas.
Pois, apezar d'isso, só para fazer rabiar o avô, dizia que não trocava!...
A Pomba era um apetite. Invejavam-lhe ovelhas a mansidão.
O avô calava-se, porque bem conhecia o sapateiro. Ria-se, sem que ninguem desse por isso, que eram tantas as rugas na cara, que mais uma menos uma não fazia differença. Onde se lhe conhecia a alegria era nos olhos, uns olhitos pequeninos, já sem côr.{206}