A burrinha a trote,—tic-tic!—e elle:
—Bons dias, visinho!
Então o cavallicoque escanzelado, muito malcreado, tinha o máu sestro de rinchar.
O avô não gostava do atrevimento; mas que havia de fazer senão conformar-se com o namoro desaforado de quantos quadrupedes na terra havia? Era a linda cabecinha branca apontar entre os humbraes da cocheira e logo cada zurro de repicaponto, que, fosse a Pomba como certas mulheres, seria a aldeia um céo aberto.
Ella, muito dengosa,—tic-tic!—olhava para todos de soslaio, mas nenhum encarava de fito.
Eu levava-a muita vez a pastar. E, como o avô não queria que ella perdesse um só ponto da reputação, dizia-me sempre:
—Não percas o animalzinho de vista. Não deixes de pear a burra.
Nem o mais pintado se lhe havia de chegar, que eu tinha sempre o olho n'ella e nunca as peias me haviam esquecido.{207}
Entretanto chegou o mez de abril e toda a charneca se encheu de flores, desde as copas mais altas dos sobreiros até ás ervinhas, que se escondem envergonhadas debaixo das moitas.
A burrinha abria muito as ventas, respirando o ar fresco da madrugada, que cheirava a alecrim e a rosmano, que nem eu sei encarecel-o! Os estevaes eram todos em flor e a charneca parecia um mar todo elle verde e branco, quando o vento cursava por essas mesas fóra.