Ella gostava de ouvir os passarinhos, que até parece que os entendia. Não ha como máus exemplos. Andava azougada e o avô inquieto.
—Peia-me a burra, dizia sempre.
Iam tamanhos desaforos pela aldeia...! Mas quem havia de pensar...?
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Ora, por esse tempo, a Pomba fez quatro{208} annos, o que é tambem a primavera na vida dos burros.
Uma certa manhã, o sol, depois de trez ou quatro dias de choviscos, appareceu de repente limpo de nuvens e com tanta luz, que as abelhas embebedaram-se todas. Era um zunir lá pelos ares, que até dava alegria á gente. E lá em baixo no montado, ao pé do rio, ainda os rouxinoes se não tinham calado, já os trigueirões andavam cantando. Era dia de festa tanto na terra como no céo!
Ora um homem póde ser marréca, aleijado e feio como eu sou, ha coisas que lhe vão direitinhas á alma.
Larguei a burra no ferregial e fui-me deitar debaixo da figueira.
Dizem que o sol, quando nasce, é para todos; porque não havia de haver uns raios para mim? Tanta moça boa na aldeia e eu estropiado, sem me atrever...
Puz-me a olhar para aquelles montes, d'onde o sol vinha a subir. Um moinho ao longe bracejava, com as velas muito brancas,{209} que mal se viam no céo todo em volta cintado de côr de sangue. Zuniam as abelhas, cantavam os passaros, e o cheiro das flores, em que me tinha deitado, trepava-me á cabeça. Fechava os olhos encadeados com a luz do céo e punha-me a sonhar. O sol appareceu por detraz do monte, correu uma aragem, as florinhas do rosmano curvaram-se, escondendo-se na troca dos beijos. Passaram no ar duas borboletas brancas, uma atraz da outra, e pelas ervas andavam gafanhotos aos saltos. Eu pensava em muita coisa junta e cantarolava baixinho uma cantiga, que tinha ouvido de longe, n'um baile da véspera: