Qual a distancia e a lonjura
Onde o sentido caminha,
Onde é que elle vai parar,
Isso ninguem adivinha.

Ora os versos que eu cantava, a burra tambem os sabia. Tinha-me esquecido peal-a{210} e, quando voltei a mim, não vi da burra nem rastos!

E ali fiquei eu, não sei que tempos, como um simplacheirão, de queixos cahidos e mãos a abanar, sem achar uma idéa que me allumiasse, sem ver remedio de vida, a tremer das furias do avô.

Depois, muito cosido com as paredes, fui até á cocheira. Talvez a Pomba tivesse tomado o caminho de casa.

O avô, satisfeito como um gato ao borralho e descançando em meu cuidado, assentára a barba sobre o peitilho, e no pateo, sentado no banco de pedra, dormia ao sol.

A burra não estava.

Fui para a charneca. Onde via esteva pisada, procurava achar um rasto. Levava n'uma palhinha a medida certa da ferradura; mas as poucas horas de sol n'aquella manhã tinham endurecido a terra.

O sol foi subindo e até ao meio dia andei leguas. O coração batia-me tanto, que me fazia doer. Não parei. Ia á doida, sem destino.{211} Bateram na villa ave-marias. Dei por mim a quatro leguas da aldeia. Calaram-se os passaros; as papoilas das estevas enrolaram-se para dormir; anoiteceu, e eu deixei-me ficar toda a noite na charneca, a tremer de susto e de frio. Toda a santa noite um mocho piou e eu pensei na coça que me esperava. Se não fosse a marréca, tinha fugido para assentar praça. Uma d'aquellas só pela fortuna! E toda a noite tive nos ouvidos a mesma cantiga... Mas quem podia adivinhar...?

Era quasi madrugada, quando cheguei a casa.

Mal o avô me avistou, bateu-lhe o queixo como em terçãs, e até os beiços se lhe fizeram brancos.