—E a burra? perguntou.
Por felicidade, n'essa altura, a Pomba entrou no pateo, a passo, de orelha muito murcha, como quem traz peso na consciencia.
Foi o que me valeu. Eu, que tanta praga durante a noite lhe rogára, tive até vontade—palavra!—de{212} desatar aos beijos á minha salvadora.
Mas já o avô a tinha agarrado. O desgosto não lhe havia feito esquecer o costume, pelo contrario, e uma melhor matadella de bicho tornava-o ainda mais terno.
O que elle disse á burra! O que elle lhe disse!
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Mas embora o velho perdoasse, o mal estava feito. Breve d'isso se convenceu. Primeiro foram apenas suspeitas, passados dias uma certeza.
O avô andava envergonhado. Já, quando passava em frente da porta do sapateiro, não largava chalaças para a loja. O caso tinha sido falado. Isto de más linguas na aldeia!... O avô parecia-lhe que a honra da burra tinha o que quer que fosse com a honra d'elle. D'antes sempre cantando—tiro-liro-liro!—andava matuto agora. «Quem seria?...{213} Vão lá saber!» Nasceu-lhe um odio enorme a todas as cavalgaduras a quem pudesse attribuir a desgraça. Desafogava comigo e dava-me bofetadas, cada vez que dizia «não a peaste!» O asno do moleiro era amarello com uma cruz nas costas e tinha fama de requestado. Nunca mais o poude ver. Contra todos tinha uma pedra no sapato e, quando o lazão rinchava, dizia:—«Desavergonhado!» Mas não desconfiava d'elle. Tão feio!...
Quiz ver se a Pomba se trahia. Quando passeava pela aldeia na burrinha, ia-lhe sempre observando qualquer gestosinho das orelhas. E ella muito seria... tic-tic!...
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