Meiados de novembro, as noites eram frias.

O Conde olhou tristemente para as janellas das casas dos lavradores alegremente illuminadas pelo fogo vivo das lareiras, e, estremecendo de frio dentro da velha sobrecasaca parda, levantou-se, tocou uma campainha e, mettendo as mãos nas algibeiras, começou passeando pela sala.

Era um velho alquebrado e quasi completamente calvo; apenas duas ou trez madeixas de cabello branco e comprido desciam-lhe da nuca até á golla do casaco. Usava a barba toda; era curta e branca. Os olhos, cuja luz a edade ia apagando, eram da côr mal definida que teem os olhos dos velhos{52} e os das creanças de mama: tinham comtudo uma expressão doce e melancholica. Ao canto da bocca uma prega vertical, desdenhosa e altiva quando o Conde estava serio, dava-lhe uma expressão de sympathica tristeza quando sorria.

Ao toque da campainha accudiu um criado.

Era um velho tambem, mais velho do que o Conde talvez. Trazia vestida uma casaca por certo verde, de tão velha que era, se não lhe occultassem o estofo accumuladas passagens de linha preta.

Entrou curvado um pouco pelo respeito, outro tanto pelos annos.

—José, disse o Conde, vae arrancar mais uma taboa á sala do docel a arranja o lume.

—Sr. Conde, eu sósinho não tenho forças.

—Chama o caseiro, como tens feito nos outros dias.

—O Manuel foi-se hoje embora, sr. Conde.{53}