—Foi-se hoje embora! Porque?
—Foi trabalhar para a quinta do João Pereira. V. Ex.ª bem sabe que o homem, coitado, tem familia que sustentar e como os ordenados andam atrazaditos...
—Effectivamente, recordo-me de que ha já bastante tempo... Ora, coitado! Mas, porque não me disse elle?... Eu esqueço-me de tudo. Has de dar-lhe dois pintos da minha parte. Eu te ajudo hoje a arrancar a taboa.
E saíndo ambos, foram a um quarto proximo e arrancaram uma taboa do soalho. O José serrou-a n'umas poucas de partes, feriu lume n'uma pederneira, porque o Conde reprovava os fosforos como perigosos, e, pouco depois, uma chamma viva e alegre trepava pela chaminé.
O Conde tornou a abrir o livro e continuou a ler Suetonio á luz de um bocado do seu palacio.
Tinham-se ido as taboas pouco a pouco e já quasi não restavam senão trez quartos{54} completos, o do Conde, o do José e a livraria. Taboas, vigas, portas e janellas tinham-se desfeito em cinzas.
E os velhos lavradores da aldeia, ao verem o fumo erguer-se acima da chaminé do palacio, sorriam tristemente e diziam:
—Coitado!
Mas o Conde continuava alegre e indifferente. Como até ali nada lhe faltára, Deus sabe á custa de quantos sacrificios do pobre criado, não pensava no estado de miseria a que se achava reduzido ou, para melhor dizer, não queria pensar.
Quando ao domingo voltava da missa, vinha conversando alegremente, com um certo ar entre familiar e protector, com os lavradores que o estimavam e gostavam de ouvil-o. Entrava nas choupanas mais pobres, e afflicto com a miseria que n'ellas encontrava, dizia baixinho para o velho José, que o acompanhava sempre, com o grande missal romano debaixo do braço: