—José, deixa um pinto em cima da{55} mesa para esta pobre gente festejar o domingo.
E saía tocando ao de leve com os dedos nas faces rosadas das criancinhas, que olhavam para elle com os seus meigos olhos grandes, cheios de espanto e de curiosidade.
O José demorava-se como que para obedecer ao fidalgo e saia momentos depois, levando nas vastas algibeiras da casaca os bocados de pão negro e de carne, com os quaes e com a ajuda de mais uma taboa o Conde havia de jantar n'aquelle dia.
E o Conde continuava alegre e passava os dias conversando, como elle dizia, com os seus auctores favoritos e entretendo a imaginação com os sonhos doirados d'um futuro melhor.
Tinha um filho.
Havia trez annos que o seu genio desleixado o obrigára a partir para o Brazil, na esperança de, á força de trabalho, reparar os desastres da fortuna.
E não fôra a ambição que o levára tão{56} longe. Não ignorava elle a maneira como se sustentava o Conde e o seu genio altivo custava-lhe sujeitar-se á compassiva esmola dos aldeãos.
Um dia, deu parte de suas tenções ao pae, mostrando-lhe a conveniencia d'aquella partida, occultando-lhe porém uma grande parte da verdade com receio que a revelação d'ella fosse um golpe fatal na vida do velho. Repellida primeiramente a ideia como absurda e pouco digna, o pobre pae, com o coração esmigalhado pela dôr e pela vergonha, teve por fim que render-se e sacrificar o seu orgulho ao orgulho mais nobre do filho.
Obtida a licença, partiu levando como capital a benção paterna e os poucos pintos que rendeu mais uma hypotheca.
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