E, outra vez deitado sobre o cofre, abraçava-o, beijava-o, como se outra alma lá{70} dentro houvesse de perceber a d'elle; pedia-lhe, cheio de ternura que não se deixasse roubar, que era vida, sangue de seu coração!
Os pinheiros humidos tornavam balsamica a atmosphera. Os raios obliquos da lua quebravam as sombras das arvores nos troncos das outras e as sombras das copas bailavam, fantasticas, sobre os fetos molhados.
E elle ali, tão sósinho com seu thesoiro! Havia tanto que lhe não punha os olhos!
Sentando-se n'uma pedra, approximando o cofre, com um esforço enorme, fez girar a tampa nos gonzos ferrugentos e queixosos.
O luar, entre dois farrapos de nuvens, encheu o cofre de faiscas d'oiro. E o avarento, em extasis, fechou os olhos, como encandeado por tanta luz!{71}
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O vento cessára de repente e no instante em que o temporal tomou fôlego, um grito de dôr, estridulo, repetido ao longe, ainda mais dolorosamente, pelo ecco da montanha empinada, partiu da choça do rachador.
Eram elles com certeza!... Eram os ladrões!
Ergueu-se abraçado ao thesoiro, tranzido de medo, suando frio. E depois, espavorido, deitou a fugir, esbarrando nos pinheiros, deixando a carne nos esgalhos, cahindo, agarrado ao cofre, sobre os seixos agudos, e levantando-se logo para correr outra vez, correr sempre, para fugir do grito, que, ameaçador, o perseguia.
E toda a noite durante, andou fugido, em correrias pelo pinhal, já nem sabia por onde. E o sangue e o suor corriam-lhe pela cara.