E estremecendo, cheio de susto, deitou a correr pelo pinhal fóra, deixando o vento levar-lhe o chapéo esboracado e remoinhar-lhe nas longas farripas grisalhas, largando aos bocados nos tojos e nas silvas os tristes farrapos que o cobriam, escorregando na caruma, agarrando-se aos pinheiros, que sacudidos{68} o encharcavam, a correr, a correr por ali fóra, até ao alto da serra, onde se deixou cahir extenuado ao pé d'um enorme pinheiro manso, sêcco, que sobre um rochedo escalvado atirava para o ar os longos braços de espectro.
Era ali o seu thesoiro.
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Longo tempo ficou estirado, de bruços, sobre os fetos humidos, arquejando longamente. Depois, creando animo, mostrando força inacreditavel em corpo tão franzino, com os braços osseos erguendo alto a enxada e deixando-a depois cair com um esforço, que lhe arrancava do peito cavado um gemido a cada enxadada, começou a cavar, a cavar, até que finalmente o ferro bateu de encontro ao ferro.
Então afastou a terra, ajoelhou, debruçou-se com avidez sobre a cova, metteu-lhe dentro as mãos, e, arquejante, fazendo um{69} esforço supremo, com um ah! de victoria, puchou a si o cofre, que, rolando no chão, produziu um som criador do extasis.
Riu-se alto, enlevado. Depois ergueu-se e com a manga da jaqueta limpou o suor que lhe escorria pela testa.
Ali estava o seu thesoiro!... Seu!
E olhava para o cofre, com ternura, sorrindo-se com uma lagrimasinha no olho, abaixando-se para sopesal-o.
Queriam roubal-o talvez! Abraçava-se ao dinheiro, com o olhar luzente d'uma fera, sentindo nas entranhas uma coragem enorme para defendel-o, como nunca loba defendeu um filho.
Podia alguem ter desconfiado do logar onde o escondêra... Era muito noite ainda teria tempo de sobra para leval-o d'ali. Felizmente não lhe escasseavam forças. Querido thesoiro da sua alma, junto moeda a moeda!