—É fome que o pequeno tem, dizia a mulher com a voz cheia de lagrimas, interrompendo o canto. Se eu não comi!... Seccou-se-me o leite.
E chorava.
Aquella mulher pedira-lhe esmola na vespera. Pedira-lhe esmola!... Tinha fome, dizia. E elle?... Tinha frio. E elle? O filho definhava-se, desde que o marido d'ella adoecêra. Pedira-lhe esmola, como se lhe fôra possivel, a elle, dar um pedaço da sua alma. Era idiota a mulher!
Mas ao som d'aquella voz estremeceu, porque ella, doida, offendida pela recusa, desgrenhada, d'olhos injectados, chamára-lhe ladrão, assassino, pondo-lhe os punhos cerrados ao pé da cara.
—Hão de tudo roubar-te um dia, e tu, cão, has de chorar, em cima da cova onde escondeste o dinheiro, esfregando a cara na lama,... ladrão!
E só a idéa de poder um dia ser assassinado,{67} roubado, que vinha a dar na mesma, fez-lhe passar pela espinha um calafrio, que lhe erriçou todos os pelinhos do corpo.
Afastou-se da chóça, para longe afugentar aquella idéa soturna; mas poucos passos andára, quando lhe pareceu ouvir o rachador, com uma voz fraca de tisico, entrecortada pela tosse, pronunciar-lhe o nome.
Novamente estacou e ficou-se boquiaberto, respirando a custo, de ouvido á escuta, sentindo bater accelerado o coração.
Calára-se tudo na chóça e apenas por vezes o vento arrastava pelo pinhal fóra uns tristes gemidos de criança, já falta de forças e farta de soffrer.
Tentariam aquelles roubal-o?