Tudo era em silencio; apenas, muito ao{64} longe, junto á fonte, uma rã solitaria coaxava tristemente.
A lua no minguante alumiava com uma serenidade triste umas trinta ou quarenta casas, dispostas no fundo do valle, ao acaso, entre os choupos da beira do riacho e os ultimos pinheiros da matta, que descia pela encosta em pujante vegetação sombria.
Pelas fendas das portas mal cerradas, ouvia-se por vezes o profundo ressonar compassado dos homens de trabalho. Então parava de ouvido á escuta, olho á espreita, com um pé para deante, o outro para traz, posto de bico, prompto para a retirada. E, quando tudo outra vez cahia no primitivo silencio, tornava a caminhar devagarinho, sempre cauteloso, sobresaltado, de olhar desconfiado, como se fosse commetter um crime.
Grossos rolos de nuvens pardacentas, com largas nodoas escuras, onde a lua, n'uma carreira seguida, mergulhava enchendo o campo de trevas, começaram deixando cair{65} grossos pingos d'agua sobre a rama dos pinheiros.
O vento soprava rijo do sul e toda a serra soltava gemidos dolorosos, fantasticos, em meio do sussurro da folhagem.
Á medida que a encosta se ia elevando, cerrava-se mais e mais o pinhal. A chuva engrossára, e por entre as ramas mal coava um ou outro raio de luar, iriando, como perolas transparentes, as gottas d'agua, que tremeluziam no extremo das agulhas.
Era no alto da serra que o seu thesoiro junto pouco a pouco, desde tantos annos, fôra escondido. Vinha augmental-o n'aquella noite, vinha palpal-o, tomar-lhe o peso, tendo como unicas testemunhas de prazer tamanho o céo de temporal e os pinheiros a gemerem.
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Subitamente estacou. Na clareira, ao meio do pinhal, era a choupana do guarda. Ouvira um chôro de criança e uma voz triste de mulher a cantar.{66}
O avarento approximou-se pé ante pé.