Outra vez, arquejante, mal sustendo-se nas pernas, trepou e desceu encostas, procurando pegadas, querendo lembrar-se, serenar, passando a mão pela testa com gestos de desespero, como tentando arrancar do cerebro a loucura, que, pouco a pouco, o invadia!{75}
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Quasi noite foi dar á choça do rachador.
Lembrou-se então que d'ali partira o grito que o amedrontára e, escumando de raiva, atirou-se contra a porta, berrando:
—Ladrões! Ladrões!
No meio do quarto estava a criança deitada sobre uma caminha de fetos, pallida, mirrada, as mãosinhas de cera atadas sobre o peito com uma fita velha de seda roxa.
E o pae e a mãe, ao lado do cadaver do filho, choravam mansamente.
O avarento parou no limiar da porta, alumiado pelo ultimo vislumbre da razão.
Recuou instinctivamente e foi cahir sobre um grande molho d'achas, dizendo palavras desencadeadas, com os olhos esgaseados, doido de todo e para sempre.
E por deante d'elle passavam bandos alegres de pintasilgos fugindo para os ninhos, levando nos bicos os farrapos da jaqueta, que elle deixára nas silvas do pinhal, em{76} quanto os gaios contentes, aquecendo-se ao ultimo raio de sol d'aquella tarde de primavera, soltavam, pulando de ramo em ramo, grandes gargalhadas ironicas.{77}