[AD ASTRA]

Quando o tio Bernardo, deitando o barrete de pelles para o lado, começava a apontar para o tecto as nuvens de fumo do negro cachimbo de gesso, escusado era falar-lhe; só rosnava em resposta um dito de mau humor ou, quando muito, um disparate. Estava pensando no Brazil, no seu Brazil, como lhe elle chamava.

E era tratar de não fazer bulha, emquanto{78} elle, sorrindo para os florões do tecto, recordava scenas da mocidade, temporaes vencidos pelo arrojo, amores de mulatas, muito ouro ganho n'um só bafejo da sorte.

—O tio Bernardo está no Brazil, diziamos nós baixinho.

E, quando o cachimbo se lhe apagava, olhava para nós a rir, sacudindo a cinza na unha rugada e negra:

—Cá me embarquei eu outra vez! Demonio de tabaco! Este diabo vem de lá... Não sou capaz de fumal-o sem que logo me ponha a sonhar... Estava pensando agora...

E começava uma historia por nós ouvida mil vezes. Eu e minha irmã sahiamos nos bicos dos pés, e elle concluia-a, dirigindo-se a minha mãe, que sentada na poltrona de tabúa, já sem feitio, pouco a pouco adormecia serenamente.

É com lagrimas nos olhos que, depois de tantos annos, me recordo d'esses tempos.{79}

A nossa casa era a mais risonha de toda a villa.

Ainda me alegra relembral-a, no alto dos rochedos, sobranceira ao mar. Muito pequena, mas sempre muito caiada, davam-lhe certo ar as gelosias verdes das janellas. Tinha em volta uma cercadura de ninhos, e todas as manhãs, no verão, acordava ouvindo cantar as andorinhas.