No inverno era mais triste. Quando havia temporal, as ondas salpicavam os vidros e minha irmã pequenina, assustada como um pardal, escondia a cabecinha loira debaixo do chaile de minha mãe, que, sentada á lareira, lembrando-se do marido e do filho mais velho, que andavam sobre as aguas do mar, resava o credo em cruz.

Não eramos dos mais infelizes; nunca soube o que era miseria. Depois que o tio Bernardo chegou, houve até sempre, lá em casa, um certo luxo, uma certa despreoccupação pelo dia seguinte.

É que o tio, além de vir dono d'um cahique,{80} trazia comsigo uma caixinha de ferro cheia até cima de muito boas libras.

Meu pae, que viera com elle como piloto, pouco tempo se demorou comnosco.

O tio Bernardo disse-lhe, uma noite, depois da ceia:

—Olha, irmão; o que ali está... (e apontava para a tal caixinha) o que ali está chega-me para aqui poder acabar socegadamente os meus dias. Sabes que mais? Dou-te de presente o cahique. Não tenhas cuidado na mulher e nos filhos. O teu mais velho tem quinze annos; que vá comtigo. Vai, e sê tão feliz, como eu fui.

Era sina de todos—o mar. Os mais desgraçados eram pescadores; os outros quasi todos partiam para o Brazil; alguns voltavam pilotos, alguns commandando por sua conta; eram os mais felizes. Alguns tambem... nunca voltavam.

E era a lembrança d'estes que tornava tão triste a lareira nas longas noites de inverno, quando uivava o temporal.{81}

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Um dia parti para a escola um bocado mais cedo que o costume, porque no quintal do padre prior, tinha visto uma figueira deitar por cima do muro, para o lado do caminho, um dos ramos todo cheio de figos brancos, tentadores.