O mestre, ou porque desejasse lisongear o tio Bernardo ou porque na verdade eu me atirasse ao estudo um pouco mais que os outros, quando ao domingo, depois da missa, nos encontrava a passear na Praça, nunca deixava de me dizer, tocando-me com dois dedos na cara:
—Ah! que se o tio quizesse... havias de ir longe.
Eu não sabia bem o que elle queria dizer com aquelle ir longe. Lembrava-me logo do Brazil. Mas porque motivo eu e não os outros?
N'aquelle dia, quando já de vara na mão{82} me dispunha a roubar quatro figos ao prior, ouvi de repente a voz de meu tio. Senti um calafrio pela espinha.
—Olá, rapaz! que andas por ahi a mariolar, em vez de ires direito para a escola?
Voltei-me todo assustado e vi-o á janella do prior, que, felizmente para mim, desatou ás gargalhadas.
—Espera ahi que te quero falar.
Esperei, mas quando chegou ao pé de mim, apesar de elle nunca me ter batido, com as duas mãos tapei as orelhas e a nuca.
O tio Bernardo poz-se a rir.
—Não tens vergonha...!