Começou andando ao meu lado muito depressa. Ás vezes parava limpando o suor.

—Sabes o que vou fazer? perguntou-me. Vou ver se o teu mestre diz verdade. Quero um dia assistir á escola.

Tremeram-me as pernas. Se ainda depois de me ter apanhado a roubar os figos, me fosse ver a atrapalhar-me á pedra! Fiz a promessa d'uma véla de cera á Senhora dos{83} Milagres e, com mais alguma confiança, entrei na escola e fui pedir a bençam do mestre.

Chegámos um nadinha tarde. Estava o Patricio á pedra.

O tio Bernardo fez um signal para que ninguem se incommodasse e sentou-se ao pé do professor. Eu caminhei gravemente para o meu logar.

O Patricio, coitado, que estenderete!

Parece-me ainda estar a vel-o com as calças de quadradinhos, remendadas, muito curtas, a barriguinha muito redonda, o que lhe dava um aspectosinho grave, a camisa de panno cru aberta sobre o peito, e dois bocados de ourelo a servirem de suspensorios. Com as mãos nas algibeiras, os olhos muito injectados, e as azas do nariz a tremerem, ouvia contendo o mau genio, a rabecada do mestre.

Não foi nunca dos mais felizes, coitado! Por ali ficou sempre. Tem quatro ou cinco medalhas ao peito e todos os dias a fome em casa.{84}

—O senhor... disse o mestre apontando para mim.

Ergui-me e, pegando no giz, acabei com desembaraço a conta, que tanto atrapalhava o Patricio.