Ouvi uma voz por cima da minha cabeça.
—Menina Maria! Menina Maria!
Era o meu vizinho da trapeira, um empregado de uma casa de penhores, feio, bexigoso e rachitico.
—Está o gaz acceso. São horas de começarmos a conversar.
N'uma janella do outro lado da rua appareceu a cabeça pallida de uma rapariga, que de dia namorava o boticario e de noite conversava com o bexigoso.
—Muito boas noites.
A menina Maria começou a fazer-lhe signaes querendo dizer, creio eu, que addiasse para mais tarde as declarações de amor, não fosse eu ouvil-as.
—O que? perguntava o bexigoso. Não percebo. É pena estar o tempo de chuva.
—É pena, é! Pouco poderemos conversar. D'aqui a pouco... Olhe, não vê? Estão{131} as nuvens quasi tapando aquella estrella.
E apontou para a estrella, que fôra até ali o meu enlevo.