Comparou-se com o Visconde e sentiu uma certa vaidade. Porque elle trabalhava, fazia alguma coisa. Se lhe perguntassem o quê, talvez não respondesse logo, assim sem pensar, sem examinar um instante com olhar desconfiado o fim com que lhe faziam a pergunta. Ás vezes, quando se levantava, não tinha de comer; era preciso arranjal-o e arranjava-o. Era talvez pouco escrupuloso; isso sim.

—Mas, pensava, para se terem delicadezas é preciso alguma coisa na algibeira.

E isso era raro, muito raro.

Decididamente, se alguém lhe perguntasse:

—Então que se faz? havia de responder como o Visconde, encolhendo os hombros.

Depois, como se toda esta cadeia de pensamentos{144} o tivesse conduzido a uma conclusão certissima, olhou para o janota, a rir-se, com certo ar maganão, e exclamou baixinho, como quem faz uma descoberta:

—Olá!

E, apontando com o dedo pollegar para o Visconde, disse piscando o olho a si mesmo:

—É cá do meus.

Chegado á rua Nova dos Martyres, o Visconde parou um instante, tirou o relogio da algibeira e, approximando-se de um candeeiro, tornou a ver as horas. Esteve um momento como que indeciso sobre o que havia de fazer; por fim dobrou a esquina e dirigiu-se para S. Carlos.