O Visconde subia o Chiado devagarinho, com as mãos nas vastas algibeiras, tirando do charuto abundantes fumaças, com aquelle sorriso de satisfação, que dá a certos parvos de bom estomago a digestão de um bom jantar.
O pobre diabo tinha fome. Almoçára na véspera; depois não tinha comido.
Mas o que mais o apouquentava era o apetite de fumar.
O fumo adormece a fome e expulsa a melancolia. Póde-se dormir, quando se tem{142} um cigarro na algibeira e o fumo de um outro enchendo o quarto. O tabaco é o veneno rei dos venenos, um elixir que mata lentamente, que embriaga, que socega os nervos, que enfraquece a memoria e dá ás pernas uma preguiça deliciosa, que faz achar boa a cama pela manhã, quando o ar está cheio de neblina e na rua afogada em lama se ouvem os pregões e o sussurro dos que teem que fazer, dos que trabalham.
—Por isso Deus que afinal é bom, ia o homem pensando, encheu as ruas de pontas de charuto para os homens e de tallos de couve para os cães, que não fumam, que não teem que esquecer, que são tolos.
Mas a noite estava chuvosa e as pontas de charuto, não se viam, enterradas na lama pelas rodas das carruagens. Por isso seguia o ricaço, ancioso pelo momento em que o charuto havia de cahir espalhando em torno uma chuva de faisquinhas.
O Visconde parava de vez em quando, apertando a mão aos amigos que desciam.{143}
—Então que se faz? perguntavam-lhe.
E elle só encolhia os hombros como resposta áquella pergunta ociosa e tola. O homem notou:
—Pois elle não terá nada, mesmo nada, que fazer?