E puz-me a passar revista a todas as suas boas qualidades, e por fim achei que eram tantas e tantas, que, esquecido da morte... fui pôr o rewolver no prego.{139}
[O MIMOSO]
—Está frio, dizia elle subindo o Chiado.
Era um homem de quarenta annos, magro, quasi cadaverico, de melenas tão compridas e tão esquecidas de pente que se lhe emmaranhavam nas barbas, de olhos negros, encovados, de olhar obliquo e desconfiado, a luzirem com fome por cima das olheiras papudas.
Era no inverno e elle com a mão ossuda,{140} engrifada apertava contra o peito a sobrecasaca rota, sem botões. Não trazia collete e a camisa era um frangalho. Como se precisa ter gravata para entrar nos passeios, onde não desgostava de ir á tarde apanhar um bocado de sol, trazia um pedacinho de panno azul pregado ao collarinho sem gomma com um alfinete de ferro. As botas rotas, sem tacões, tinham, a tapar-lhes os buracos, camadas sobrepostas de lama secca.
Parou á porta do Baltresqui.
Um janota sentado a uma das mesinhas do café, deante de uma garrafa de Père Kermann, aspirava o fumo aromatico de um charuto pequenino. Passados momentos, tirou o relogio da algibeira, viu as horas, engoliu de um trago as ultimas gottas do calix e, chamando o criado pelo nome, atirou-lhe uma nota de dez mil réis. Quando o criado voltou com o trôco, levantou-se deixando o cobre em cima da mesa.
—Muito obrigado, sr. Visconde, disse o{141} criado, dando-lhe piparotes na manga do sobretudo suja pela cinza do charuto, que o Visconde quebrára na borda da mesa.
—É um visconde, observou distrahidamente o homem das botas rotas.
E como o Visconde voltasse para cima, seguiu-o á espera que deitasse fóra a ponta do charuto. Ia apertando a sobrecasaca contra o peito e invejando o casaco do Visconde, comprido, felpudo, de grande golla, que se podia levantar e abrigava as orelhas do frio.