Um candeeiro de petroleo, com vidro sujo e luz economica, alumiava fracamente as roupas inuteis, que nas prateleiras até ao tecto esperavam tristemente pela traça ou pelo proximo leilão.
Uma guitarra sem cordas pendia de um prego ao lado de uma serra. Do outro lado, o retrato de um bom velho burguez e calvo, com a barba cerrada, ar de pessoa de bem, e um botão d'oiro, quadrado, no peitilho da camisa, sorria com bondosa satisfação{148} para um cacho de botas velhas, que, suspensas do tecto, se lhe baloiçavam a dois palmos do nariz. Tinha valido um dinheirão, valia agora cinco tostões.
O homem parou á porta e poz-se á espreita.
—Muito boas noites, sr. Gomes.
—Olá!
—Dá licença?
Atirou o lenço para cima do balcão.
—Faça favor de ver isso.
E, á espera que o exame do lenço acabasse, entreteve-se a olhar para uma borboleta, que esvoaçava em torno do candeeiro.
O Gomes desdobrou o lenço, sacudiu-o, levantou um pouco a torcida e começou um exame minucioso, palpando, virando e revirando a seda.