Mas voltando ao êi, objecto especial desta lição, bom é notar que esse ditongo nem sempre é expresso, mormente na orthografia antiga. Os antigos escreviam regularmente têa fêo cêa recêo: os modernos escrevem geralmente mais conforme a pronuncia. Seja como fôr, o estylo da lingua não admitte o ditongo êo êa; e em taes casos, esteja o i expresso ou não, ha de se ouvir o ditongo êi antes da voz final.

A razão popular, ainda mais que as academias, tende sempre a racionalisar a orthografia ajustando-a com a falla; e por isso, como já indicámos, hoje o mais ordinario é escrever-se feio receio teia aldeia. E ainda bem. Mas o que parece equívoco da parte dalguns autores é escreverem, por exemplo grangeiar receiar, porque em certas vozes (do presente do indicativo, imperativo e conjuntivo) de similhantes verbos soa êi. Sempre ouvimos dizer cêio e recêio; mas ainda não ouvimos dizer cêiêi e recêiêi. O i, que o estylo da lingua insinua naquellas vozes, é um accidente do verbo e não o mesmo verbo na sua forma primitiva. Se as alterações que soffrem as vogaes durante a conjugação dos verbos devessem figurar no infinito, não havia modo de os escrever. Escrever, por exemplo; segundo e, grave; escrevo, segundo e, agudo: velar, e, grave; velo, e, aberto; vele, e, agudo (o mesmo da primeira syllaba).

E sem fallarmos nos casos em que até as consoantes variam, como nos verbos acabados em gar e car, aqui se mostra que a lingua portugueza não guarda nos derivados a prosodia radical, por outra, que não é uma lingua etymologica, como era a latina: assim como não é uma lingua metrica, com syllabas longas e breves, como o latim; e assim como não é uma lingua declinavel, com sete, oito, nove, dez e mais formas do mesmo nome, pronome ou adjectivo, como havia no latim. Ora não sabemos que traços mais profundos de divergencia pode separar uma lingua de outra. Em que se fundam pois os argumentos de analogia com que o pedantismo nos tem sempre querido impor a orthografia latina? Bem fez a Hispanha que importando-lhe mais os seus grandes interesses, do que os embaraços do filologo em descobrir a origem e significação de Cristo escrito sem h, tem hoje a mais perfeita orthografia do mundo. E nisso se podem fundar boas esperanças da enorme civilisação que espera aquelle generoso povo, tantos seculos á espessa sombra da monarchia.

ei = êi dê lê dei lei atei papei lavei abalei feita feito feitio deito deitou deitei babei beija beijo beijou beijei dei-a dei-o veia veio feia feio leia leio peia teia

DECIMA TERCEIRA LIÇÃO

Não tratamos aqui dos valores da letra e.

Tratamos das vozes similhantes que essa letra representa; que são quatro: e agudo, que se exprime no proprio nome dessa vogal, é; fechado, de que fallámos na lição antecedente, , dêi; aberto, que não tendo signal especial em portuguez, muitas vezes figura com o mesmo agudo, por exemplo, bello, pés: e ha um outro, de todos o menos parecido com o agudo ou nome da letra, chamado grave, do qual já tivemos occasião de fallar.

Este e, que mal podemos declarar por escrito, mas que o ouvido distingue perfeitamente, é frequentissimo no principio, no meio e no fim de palavras; mas tambem frequentemente mal proferido, e até supprimido, mormente no fim.

Pondo nisso especial cuidado; não deixeis o vosso discipulo dizer fal' em logar de falle, assim como lhe não deixeis dizer vile em logar de vil, papele em logar de papel, etc. Basta contar as syllabas, e não o deixar fazer, de duas, uma; e de uma, duas.

Ha numa linguagem viciosa não sabemos que mostras de má educação ou de rudeza. Devemo'-nos empenhar o mais possivel em aperfeiçoar o estylo dos nossos discipulos.