Ora na Grecia, onde só havia sete sabios, ninguem era obrigado, para ler e escrever grego, senão a saber grego. Naquella mina inexhaurivel de etymologias, não havia etymologias. Escrevia-se com a maxima exacção, salpicando-se a escrita de signalinhos, e entre esses figuravam os de aspiração, que eram umas virgulasinhas sobrepostas á vogal ou consoante accidentalmente aspirada.
Os latinos, em logar dessas virgulasinhas, tinham h, caracter improprio e indevidamente mettido na cathegoria das letras; mas elles, importando-lhes pouco tirar aos derivados os ares de familia, íam seguindo a sua orthografia, empregando o h, tanto em palavras de origem patria como de origem grega.
E como o portuguez é filho do latim na opinião dos sabios, apezar de não termos aspiração, cá temos tambem o h em palavras do latim, do grego (que não tinha culpa nenhuma da orthografia latina), e até em palavras de origem ou orthografia nossa, como sahir, cahir, chegar, fechar; servindo-nos o h de accento.
De tudo isto resulta que os gregos tinham a sua orthografia, os latinos a sua, e nós temos a dos latinos, sem o seu criterio e a sua coherencia.
A dizer a verdade não ha differença essencial entre aspiração e accentuação: ambas envolvem fôrça: mas ha a differença sobeja para não confundir nem os nomes nem os signaes.
O h em portuguez não vale aspiração; umas vezes é accento, outras vezes é signal etymologico, outras vezes é ambas as cousas.
Applica-se a todas as vogaes e á terça parte das consoantes, ou tanto monta, a metade do abecedario. A sua indole é carregar, accentuar, apezar das muitas excepções. Vejamos com as vogaes.
Ahi, ah, huivo lê-se como se escrevessemos aí, á, úivo: aqui vale accento agudo.
Heroe, honesto, hostil lê-se como se escrevessemos êroe, ônesto ôstil: aqui indica etymologia, valendo ao mesmo tempo de accento circumflexo.
Em raras palavras começadas etymologicamente por h, deixa a primeira vogal de ser mais ou menos fortemente accentuada.