Messines.

NO LEITO NUPCIAL

Dorme, estatua de neve,
Vergontea de marfim!
Tocar que impio se atreve
No que é sagrado assim?

Dois são: o mais, mysterio
Vedado á terra. Deus
Talvez do solio ethereo
Nem baixe os olhos seus.

Respeita-os, tapa-os, como
Japhet e Sem, o pai...
Pende, sagrado pomo!
A vista ergue-se e cai.

Ergue-se e cai, conforme
A lei, que o manda assim.
Ergue-se e... Dorme, dorme,
Vergontea de marfim!

Mas dize: o espelho a imagem
Te estampa mal te vê;
Beija-te o seio a aragem,
Doira-te o sol; porquê?

Não segue acaso a sombra
Teu corpo sempre, flôr!
E pois, porque te assombra
Meu insensato amor?

Ás vezes passas tremula
Como sagrada luz;
E os olhos dizem: vemol-a
Como no alto a cruz.

Perdoa se isto exprime
Maldade aos olhos teus;
Perdoa-me se é crime...
Amo tambem a Deus.

E á tarde quando o albergue,
No solitario val,
Incenso queima e se ergue
D'Abel o fumo igual;

Da pomba solta o vôo,
Baixa-me um olhar teu
E dize-me: perdôo;
Sim, tudo aspira ao céo!

Coimbra.

A MINHA MÃI

Patria! berço d'amor, que a alma embala
Em quanto a luz vital nos illumina,
E onde só descançado se reclina
Quem, longe d'ella, dôr contínua rala...

Se n'essa essencia, mãi! que a flôr exhala
Na essencia d'uma flôr d'essa collina,
Vês lagrimas d'amor que dentro a mina,
Com saudades de quem do céo lhe falla:

Se quando, o céo buscando, o fumo ondeia,
Quando esse valle o sol deixa indeciso,
Vês como fumo e flôr aspira, anceia

Um pai, um Deus, um céo, um paraiso,
Ah! tendo eu tudo, tudo, em minha aldeia,
Vê tu se labio meu desfolha um riso!

Coimbra.

BEATRIZ

Tu és o cheiro que exhala
Ao ir-se abrindo uma flôr,
Tu és o collo que embala
Suas primicias d'amor.

Tu és um beijo materno,
Tu és um riso infantil;
Sol entre as nuvens do inverno,
Rosa entre as flôres d'abril.

Tu és a rosa de maio,
Tu és a flammula azul,
Que atam á flecha do raio
As nuvens negras do sul.

Tu és a nuvem d'agosto,
Meu alvo vello de lã!
Tu és a luz do sol-posto,
Tu és a luz da manhã.

Tu és a timida corça
Que mal se deixa avistar;
Tu és a trança que a força
Do vento leva no ar.

És a perola que salta
Do niveo calix da flôr;
És o aljofar que esmalta
Virgineas rosas d'amor.

És a roseira que a custo
Levanta os cachos do chão,
És a vergontea do arbusto,
Anjo do meu coração!

Tu és a agua das fontes,
Tu és a espuma do mar,
Tu és o lirio dos montes,
Tu és a hostia do altar.

És o pimpolho, és o gommo,
És um renovo d'amor;
Tu és o vedado pomo...
Tu és a minha Leonor...

Tu és a Laura que eu amo,
E a minha Taboa da Lei,
E a pomba que trouxe o ramo,
E a margarida que achei.

És o lirio, és a bonina
Dos valles do meu paiz;
És a minha Catharina...
És a minha Beatriz!

Coimbra.