VENTURA

O sol na marcha luminosa vôa
Lançando á terra magestoso olhar;
Passa cantando quem o ar povôa
E a praia abraça venturoso o mar.

No bosque o vento dôce canto entôa,
Ouvem-se em côro as multidões cantar;
Que a um só triste o coração lhe dôa,
Que eu seja o unico a soffrer, chorar...

Por ti, saudade... de quem vai tão perto
E a quem dos olhos e das mãos perdi
N'este tão ermo lugubre deserto!

Por ti, ventura... que uma vez senti;
Por ti, que ás vezes a meu peito aperto
E... o peito aperto sem te vêr a ti!

Evora.

Arida palma
Tem seu licôr,
Tem como a alma
Tem seu amor;
Tem como a hera
Tem seu abril,
Tem como a fera
Tem seu covil.

Tem toda a planta
Que o sol queimou
Lagrima santa
Que a orvalhou,
E o passarinho
Que hontem nasceu
Lá tem seu ninho
Que a mãi lhe deu.

Só eu na magua
Do meu penar
Sou como a agua
Que anda no mar,
Sou como a onda
Que á busca vem
D'onde se esconda,
E onde, não tem!

Folha revolta
Que anda no chão,
Lagrima solta
Do coração;
Corpo sem vida,
Haste sem flôr,
Folha cahida
Do meu amor.

Coimbra.

A UNS OLHOS AZUES

Cahe a folha da rosa pudibunda,
Cahe a rosa da face virginal,
Cahe das nuvens a aguia moribunda,
Cahe o sol na montanha occidental.

Cahe a onda na praia, cahe do somno
O poeta na luz; e cahe das mãos
Dos despostas o sceptro, elles do throno,
Como a seus pés cahiram seus irmãos!

Cahe dos labios o riso; cahe dos olhos
A lagrima tambem, que d'alma sahe;
Cahe a rocha no mar, cahe nos abrolhos
A flôr de liz; de louro a folha cahe.

Cahe do céo a centelha incendiaria,
A nuvem cahe se um sopro Deus lhe dá,
Cahe ante o dia a noite solitaria
Como o falso Dagon ante Jehovah.

Cahe tudo, flôr! cahe tudo; eu só não cáio:
Mais do que um rei, que o sol, igual a Deus,
Cahir, mulher! só posso á luz d'um raio
Se elle cahir do céo dos olhos teus!

Luso.

HERESTA

Que magua ou que receio
Dos olhos te desata
Aljofares de prata
No jaspe do teu seio?

Bem intima ser deve
A pena que te opprime,
Flôr tenra como o vime,
Flôr pura como a neve!

—Compunge-te isso, dóe-te
Vêr esmaltando o calix
Da erma flôr dos valles
O balsamo da noite?

Se aos olhos nos affluem
As lagrimas, parece
Que a dôr nos adormece,
E as maguas diminuem.

—Heresta! pois inclina
Na minha a tua face
E deixa me repasse
Teu balsamo, bonina!

Abraça-me, divide
Commigo esse consolo,
Enlaça-te ao meu collo
Como ao olmeiro a vide!

Ás vezes tambem quando
Os olhos se me estendem
Ás luzes, que se accendem
No templo venerando;

Tão intima saudade,
Tão intimo desejo,
D'um mundo, que não vejo,
Me inspira a immensidade...

Que o pranto se agglomera
Na palpebra, onde morre;
Sim, gela-se, não corre,
Tal é a dôr que o gera!

—É Deus que a si te aspira,
É Deus que ao céo te chama;
Que em tudo amor derrama,
A tudo amor inspira!

Canta-o, o justo, o santo!
E a flôr que o campo adorne
Thuribulo se torne
Mal te ouça o dôce canto.

—Inspira-o pois, inspira,
Virgem de intacto pejo!
Seja um teu riso o harpejo
E um teu cabello a lyra!


O sol já da montanha
Te disse adeus! adeus!
E a cupula dos céos
Ficou pallida e estranha.

E aquella, que a bondade
De Deus em si reflecte,
Em quanto ao sol compete
Mostrar-lhe a magestade,

Á luz extrema d'hoje
Ergueu livida a face
Com medo que avistasse
Quem busca, e de quem foge.

Fluxo e refluxo eterno
D'alma contradictoria,
Que após continua gloria,
Anda em continuo inferno.

Poeta! é copia tua,
Supplicio igual te inquieta.
Mas que alma de poeta
Teu seio arqueia, oh lua?

Amor, amor como este,
Visão timida e casta
Em giro eterno arrasta
A lampada celeste.

Como esse que a deshoras
A ti te ergue a cabeça
E aos ermos te arremessa
Em busca do que adoras.

Mas, ah! pallido globo!
É pio d'ave nocturna,
Echo em alguma furna
Do uivo d'algum lobo?

Ouço uma voz... escuta:
É ella a voz que se ouve?
Ou monge que inda louve
A Deus, n'alguma gruta!

Quem lá em baixo á escarpa
D'um ingreme penedo
No tremulo arvoredo
Entorna os ais d'uma harpa?

É ella a minha Heresta,
A minha branca ermida
Do ermo d'esta vida,
Mais erma que a floresta?

Tu, lua, que no val
D'Aialon paraste,
Já viste em sua haste
Suspenso lirio igual?

Não é, não é mais bella
A rosa entre os abrolhos,
Nem ha como os seus olhos
No céo nenhuma estrella!

É á luz d'uma alvorada,
Apenas desabrocha,
Nos angulos da rocha
Vêl-a despedaçada!

Vós, lobos! ide em bando,
Trepai pelo rochedo,
Uivai, mettei-lhe medo,
Levai-a recuando!

Que faz quem se aproxima
D'um precipicio, diz-m'o?
Que buscas tu no abysmo
Se o céo é lá em cima?

Não tarda muito, creio,
Que acabe esta ancia nossa,
E Deus unir-nos possa
No seu eterno seio.

É lá que a alma falla,
Lá que o amor se mede,
Que em brilho o sol excede,
E em gloria a Deus iguala!

Na nuvem do futuro
Teus vagos olhos prega!
Depois de noite negra
Vem sempre um céo mais puro.


E agora, se o desejo
Te satisfiz, em premio
D'um canto d'alma gemeo,
Um gemeo e dôce beijo!