NA FOLHA D'UM ROMANCE
Moldada ao bem nasci, mas debil planta
Verguei de vicio ao sopro pestilente;
D'entre o vicio porém minha alma ardente
Castos hymnos a Deus saudosa canta.Ah! se um mentido affecto amor levanta
N'um pobre coração inexperiente,
D'elles a culpa é toda! uma innocente
Não consulta a razão, razões supplanta.Cahi, verguei, Senhor! já pervertida
Graças, beijos vendi, vendi belleza,
Triste commercio de mulher perdida.Oh! mas, Deus do amor! foi só fraqueza:
De impias mãos me arrancai, tirai-me a vida,
Alcance-me o perdão mortal tristeza!
Lagrima celeste,
Perola do mar,
O que me fizeste
Para me encantar!Ah! se tu não fosses
Lagrima do céo,
Lagrimas tão dôces
Não chorára eu.Se nunca te visse
Bonina do val,
Talvez não sentisse
Nunca amor igual.Pomba desmandada,
Que é dos filhos teus,
Luz da madrugada,
Luz dos olhos meus!Meu suspiro eterno,
Meu eterno amor,
D'um olhar mais terno
Que o abrir da flôr,Quando o nectar chora,
Que se lhe introduz,
Ao romper da aurora,
Ao raiar da luz,Por entre a folhagem
Onde mal se vê,
Como a terna imagem
Da que eu adorei.Que esta voz te enleve,
Que este adeus lá sôe,
Que o Senhor t'o leve,
Que Deus te abençôe.Que o Senhor te diga
Se te adoro ou não,
Minha dôce amiga
Do meu coração!Se de ti me esqueço,
Se já me esqueci,
Ou se mais lhe peço,
Do que vêr-te a ti;A ti que amo tanto
Como a flôr a luz,
Como a ave o canto,
E o Cordeiro a cruz,E a campa o cypreste,
E a rola o seu par,
Lagrima celeste!
Perola do mar!
DESCALÇA!
Quem és, que ao vêr-te o coração suspira,
E em puro amor desfaz-se!
Raio crepuscular do sol que nasce,
De lampada que expira!Como os teus pés são lindos! como é dôce
A curva do teu peito!
Oh! se o meu coração fosse o teu leito,
E o teu amado eu fosse!Que preciosas perolas descobre
Teu meigo humido labio!
E, virgem! como Deus foi justo e sabio
Em te fazer tão pobre!Não tens fofo velludo onde se atole
Tua angelica imagem;
Mas quando é bello o céo, bella a paizagem
E quando é bello o sol?Limpo de nuvens, nú, derrete a neve
E a aguia até desmaia.
Tu não tens mais do que uma pobre saia,
E essa, curtinha e leve.Onde o corpo te alteia, a saia avulta;
Onde te abaixa, desce...
És como a rosa! A rosa nasce e cresce,
Não para estar occulta.O que te falta pois? os teus desejos
Quaes são? de que precisas?
Ah! não ser eu o marmore que pisas...
Calçava-te de beijos!
ADEUS!
Adeus tranças côr de oiro,
Adeus peito côr de neve!
Adeus cofre onde estar deve
Escondido o meu thesoiro!Adeus bonina, adeus lirio
Do meu exilio d'abrolhos!
Adeus oh luz dos meus olhos
E meu tão dôce martyrio!Desfeito sonho doirado,
Nuvem desfeita de incenso,
Em quem dormindo só penso,
Em quem só penso acordado!Visão sim mas visão linda!
Sonho meu desvanecido!
Meu paraiso perdido
Que de longe adoro ainda!Nuvem, que ao sopro da aragem
Voou nas azas de prata,
Mas no lago que a retrata
Deixou esculpida a imagem!Rosa d'amor desfolhada
Que n'alma deixou o aroma,
Como o deixa na redoma
Fina essencia evaporada!Adeus sol que me alumia
Pelas ondas do oceano
D'esta vida, d'este engano,
D'este sonho d'um só dia!No mesmo arbusto onde o ninho
Teceu a ave innocente
Se volta a quadra inclemente
Acha abrigo o passarinho:Mas eu n'esta soledade
Quando em meus sonhos te estreito,
Rosto a rosto, peito a peito,
Acordo e acho a saudade!Adeus pois morte! adeus vida!
Adeus infortunio e sorte!
Adeus estrella do norte!
Adeus bussola perdida!