CORO
—Ah rainha das mulheres!
Se sabes para que banda
Elle iria o teu amigo,
Anda d'ahi, vamos, anda:
Nós imos todas comtigo
Á busca d'elle se queres.
A SULAMENSE
—Elle parece-me a mim
Que ha-de andar no seu jardim,
A apanhar açucenas,
Que é do que elle gosta apenas.
SALOMÃO
—Oh que formosa, meu bem!
Não ha cidade afamada,
Nem Thirsa ou Jerusalem,
Mais bella que a minha amada.Mettes mais respeito andando,
Que um exercito avançando.Os olhos faiscam fogo.
Tira de mim essa vista,
Que ao depois fugi eu logo
Porque não ha quem resista.O cabello, em quantidade
E tamanho, é singular!
E não me lembra senão
Das cabras de Galaad,
Que o arrastam pelo chão,
Em ellas indo a andar.
Os dentes, em tu abrindo
A tua bocca, que lindo!
Nem um rebanho d'ovelhas,
Todas brancas e parelhas,
Ao vir sahindo do banho
D'uma em uma, e cada uma
Seus dois gemeos d'um tamanho,
Sem ser maninha nenhuma.
As faces não ha de certo
Assim casca de romã
De cor tão linda e tão sã.
E fóra o que anda encoberto.És tão formosa, vê lá,
Que as rainhas são sessenta,
As concubinas oitenta,
Donzellas, quem é que as dá
Todas contadas? ninguem.
Pois e de quantas possuo,
A minha pomba, o meu bem,
A minha mimosa, és tu.
E o mesmo dizia já
Lá em casa tua mãi,
Com tantas filhas que tem.Quando chegaste, as donzellas,
Concubinas e em summaAs rainhas, todas ellas
Sem excepção de nenhuma,
Gritaram todas á uma:
Viva a rainha das bellas!
VI
PASSEIO
CORO
—Que linda mulher aquella!
Nem a aurora lhe ganha.
A lua não é tão bella
Nem a luz do sol tamanha;
Mette mais vista só ella
Que um exercito em campanha.