Despe o luto da tua soledade
E vem junto de mim, lirio esquecido
Do orvalho do céo!
Tens nos meus olhos pranto de piedade,
E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,
Mulher! sou irmão teu.Consolos não te dou, que não existe
Quem de lagrimas suas nunca enxuto
Possa as d'outro enxugar:
Não póde allivios dar quem vive triste,
Mas é-me dôce a mim chorar se escuto
Alguem tambem chorar.Botão de rosa murcho á luz da aurora!
Que peccado equilibra o teu martyrio
Na balança de Deus?
Se é como justo e bom que elle se adora
Quem te ha mudado a ti, ó rosa! em lirio,
E em lirio os labios teus?Não enche elle de balsamos o calix
Da flôr a mais humilde, e esses espaços
Não enche elle de luz?
Não veio o Filho seu, lirio dos valles!
Só por amor de nós tomar nos braços
Os braços d'uma cruz?Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio
Levanto o pó dos tumulos sósinho:
Eis, digo, eis o que eu sou.
Mas quando penso bem n'esse mysterio
Da virtude infeliz: vai teu caminho;
Dois mundos Deus creou.Deus não dispara a setta envenenada
Á pombinha que aos ares despedira
Com mão traidora e vil.
Imagem sua, Deus não volve ao nada,
Não aniquila a flôr que ao chão cahira
Lá d'esse eterno abril.Has-de, cysne! expirando alçar teu canto,
Has-de lá quando a lua da montanha
Te acene o extremo adeus,
Voar, Candida! ao céo, e ebria de encanto,
No oceano d'amor que as almas banha,
Unir teu canto aos seus.Seus, d'ellas, mãi e irmã, cinzas cobertas
D'um só jacto de terra... oh desventura!
Oh destino cruel!
Vejo-as ainda ir com as mãos incertas
Guiando-se uma á outra á sepultura,
E a mãi: Rachel! Rachel!
AMOR
Amo-te muito, muito.
Reluz-me o paraiso
N'um teu olhar fortuito,
N'um teu fugaz sorriso.Quando em silencio finges
Que um beijo foi furtado
E o rosto desmaiado
De côr de rosa tinges;Dir-se-ha que a rosa deve
Assim ficar com pejo,
Quando a furtar-lhe um beijo
O zephyro se atreve;E ás vezes que te assalta
Não sei que idéa, joven!
Que o rosto se te esmalta
De lagrimas que chovem;Que fogo é que em ti lavra
E as forças te aniquila,
Que choras, mas tranquilla,
E nem uma palavra?Oh! se essa mudez tua
É como a que eu conservo,
Lá quando á noite observo
O que no céo fluctua;Ou quando, á luz que adoro,
Ás horas do infinito,
Nas rochas de granito
Os braços cruzo e chóro;Amamo-nos... Não cabe
Em nossa pobre lingua
O que a alma sente, á mingua
De voz, que só Deus sabe.
A DONZELLA E O MUSGO
Um dia, não sei que eu tinha...
Uma tristeza tamanha!
E lembra-me ir á montanha,
Que temos aqui vizinha,
Onde em tempo me entretinha
Horas e horas sósinha
Quando ainda se não estranha
Que n'uma teia de aranha
Se prenda uma innocentinha,
Ou atraz d'uma avesinha
Se cance a vêr se a apanha.Depois é que o mundo falla
E se mette com a vida
De quem ás vezes se cala
Por ser mais bem procedida.
Que esta gente que faz gala
Em coisa, que vê, contal-a,
E sendo mal permittida
Inda em cima acrescental-a,
Teem a lingua comprida
E bem deviam cortal-a.Vou pelo córrego acima,
Subo á ponta do penedo;
Que a vida só quem a estima
É que da morte tem medo.
A mesma tristeza anima
A encarar a pé quedo
A morte que se aproxima
A tirar-nos do degredo,
Que inda a gente se lastima
De não acabar mais cedo.E alli sósinha chorando
Me lembrava, ora a ventura
Da minha infancia, inda quando
Levava os dias brincando;
Ora a desgraça futura,
Que me estava annunciando
Não sei se a minha amargura,
Se uma nuvem, grande e escura,
Que se ia no ar formando
E vinha já avançando,
Como que á minha procura.E ainda o pranto corria
E o cabello me batia
No rosto, que me doía,
Tal era a força do vento;
Já tudo tão pardacento
A nevoa e chuva fazia
Que eu olhava, mas dizia:
É nuvem ou penedia
Aquelle vulto cinzento?
O mar brilhante algum dia
Como prata luzidia
Já ninguem o distinguia
Da terra e do firmamento:
Uivar só é que se ouvia,
Mas uivar sem sentimento;
E como em grande tormento
Se desvaira a phantasia:
—Fosse eu mar, disse; valia
Mais ser coisa bruta e fria,
Como a rocha onde me sento.Faz um trovão no momento
Que soltava esta heresia;
E áquella rouca harmonia
Occorre-me um pensamento,
Que me dá uma pancada
O coração de tal modo,
Como se o rochedo todo
Desandasse na chapada.Era a voz da consciencia
Que me accusava do crime
De negar á Providencia
A razão com que me opprime.
Peço perdão, commovi-me
E n'um extasi sublime
Lagrimas de penitencia,
Como um balsamo, uma essencia,
Purificam-me e senti-me
Com uma nova existencia.Ólho; as nuvens esvaíam-se:
Os roncos do mar ouviam-se,
Mas já mais de espaço a espaço.
O sol ainda tão baço,
De luz tão pouco brilhante,
Que se media a compasso
Como a cara d'um gigante,
Descobre-se e resplandece!
Ao longe o mar apparece;
E tudo, mar, terra e céos
Tão formoso me parece,
Como se agora tivesse
Sahido das mãos de Deus!No rochedo onde descança
Meu corpo desfallecido,
O verde musgo, vestido
Sempre da côr da esperança,
Agora reverdecido,
Me ensina a ter confiança
N'esse que do céo nos lança
Em dia tempestuoso,
Só para nosso repouso
O arco da alliança.Pobre musgo, descuidado,
Sem olhos para chorar,
Sem poder alliviar
Com seu pranto um desgraçado,
Consolar-se e consolar!
Fallas mais a meu agrado
Que o livro mais afamado
D'esses livros, que em lugar
De nos dar consolação,
Nos fazem cahir no chão
Um pranto mal empregado,
E inda mais amargurado
Nos deixam o coração.Colhi-o, pul-o no seio,
E é hoje o livro que leio.
Messines.