Despe o lucto da tua soledade
E vem junto de mim, lirio esquecido
Do orvalho do ceu!
Tens nos meus olhos pranto de piedade,
E se és, mulher! irmã dos que hão soffrido,
Mulher! sou irmão teu.
Consolos não te dou, que não existe
Quem de lagrimas suas nunca enxuto
Possa as d'outro enxugar:
Não póde allivios dar quem vive triste,
Mas é-me dôce a mim chorar, se escuto
Alguem tambem chorar.

E não ha artificios n'esta poesia, que é singela como todos os grandes sentimentos, harmoniosa e virginal como um sorriso de creança, suave e consoladora como uma parabola de Christo, serena e luminosa como um dialogo de Platão:

Mulher, mulher! quando eu n'um cemiterio
Levanto o pó dos tumulos sósinho:
Eis, digo, eis o que eu sou,
Mas quando penso bem n'esse mysterio
Da virtude infeliz: Vae teu caminho;
Dois mundos Deus creou.

É poesia que se sente e que poucos exprimem, são versos que se admiram e que rarissimos os escrevem.

As imagens adejam-lhe em torno frescas, vivas, alegres e graciosas, como um bando de andorinhas em torno dos frisos d'um campanario:

Quando em silencio finges,
Que um beijo foi furtado,
E o rosto desmaiado
De côr de rosa tinges,
Dir-se-ha que a rosa deve
Assim ficar com pejo,
Quando a furtar-lhe um beijo
O zephiro se atreve.
............................

A bôca é tão vermelha que, em te rindo,
Lembra-me uma romã aberta ao meio
Quando já de madura está cahindo.
......................................
Quando a sua mãosinha pondo um dedo
Em seus labios de rosa pouco aberta,
Como timida pomba sempre alerta,
Me impunha ora silencio ora segredo.

Não ha nada mais gracioso, mais natural, mais espontaneo, mais facil! A gente chega a pasmar de não encontrar todos aquelles dizeres elegantes, todos aquelles versos formosissimos nos outros poetas, tal é a fluencia e a vitalidade d'esta inspiração.

Na voz de João de Deus ha as inflexões carinhosas de uma creança; os versos parecem caricias; têm a suavidade affectuosa das orações de uma santa e aquelle tom amavel e triste, mas nunca pretencioso, dos verdadeiros scismadores:

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que n'esta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do tumulo descendo.
..................................
Alma gemea da minha, e ingenua e pura
Como os anjos do ceu (se o não sonharam...)
Quiz mostrar-me que o bem, bem pouco dura.

Não sei se me voou, se ma levaram,
Nem saiba eu nunca a minha desventura
Contar aos que inda em vida não choraram.

Camões não a sentiu mais, nem a escreveu melhor esta poesia da tristeza, esta melancolia suave d'um scismador, esta saudade resignada de uma alma nas soledades do infortunio, nos desterros do isolamento. Ha alli poesia para vinte poemas, ha alli suavidade para vinte idyllios.