As rhimas parecem beijos, tão estreitas se enlaçam, tão ardentes se casam, tão apaixonadas se apertam:
Que magoa ou que receio
Dos olhos te desata
Aljofares de prata
No jaspe do teu seio?
Bem intima ser deve
A pena que te opprime,
Flôr tenra como o vime,
Flôr pura como a neve!
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Vós, lobos! ide em bando,
Trepae pelo rochedo,
Uivae, mettei-lhe medo,
Levae-a recuando!
Que faz quem se approxima
D'um precipicio, diz-m'o?
Que buscas tu no abysmo
Se o ceu é lá em cima?
É só a lyrica intitulada—Heresta—que me fornece estes quatro exemplos; podia fornecer-me trinta e dois, porque são trinta e duas as quadras d'essa formosa composição.
Ás vezes o verso deixa de ser uma phrase e transforma-se n'um suspiro, a estrophe deixa de ser um canto e converte-se n'um arrulho. Tudo alli é muito amar, profundamente sentir e divinamente cantar:
Que é d'esses cabellos d'ouro
Do mais subido quilate,
D'esses labios escarlate,
Meu thesouro!
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Que é d'uma flôr da grinalda
Dos teus dourados cabellos,
D'esses olhos, quero vêl-os,
Esmeralda!
Que é d'essa alma que me deste!
D'um sorriso, um só que fosse.
Da tua bôca tão dôce
Flôr celeste!
Tua cabeça que é d'ella
A tua cabeça d'ouro,
Minha pomba! meu thesouro!
Minha estrella!
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E as desgraças, podia prevêl-as
Quem a terra sustenta no ar,
Quem sustenta no ar as estrellas,
Quem levanta ás estrellas o mar.
Deus podia prevêr a desgraça,
Deus podia prevêr e não quiz;
E não quiz, não... se a nuvem que passa
Tambem póde chamar-se infeliz.
Quem escreve d'isto, sente-o. Um homem não arranca ao seu espirito d'estas perolas sem as lá ter em sentimento e em amor. E só o alto calor d'um grande, d'um immenso coração póde cristallisar taes diamantes; o fogo sómente do craneo não produz d'estes milagres d'inspiração:
Não se é só pó no fim de tanta magoa,
Senão diga-me alguem que allivio é este
Que sinto, quando á abobada celeste
Alevanto os meus olhos rasos d'agoa.
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Ha depois d'esta vida inda outra vida,
Não se reduz a nada o grão d'areia,
E havia de a nossa alma, a nossa ideia
Nas ruinas do pó ficar perdida?
Se isto não é inspiração, e alta inspiração, não sei que nome se ha de dar ás maravilhas do genio de Dante, de Shakspeare, de Camões ou de Victor Hugo.
Um espirito que se eleva a taes alturas tem obrigação de produzir um Hamlet, uma Divina Comedia ou uns Lusiadas.
Sente-se pela leitura d'este volume que Camões é o auctor predilecto de João de Deus. O livro abre até por uma composição que póde considerar-se uma verdadeira profissão de fé em poesia. A propria fórma poetica da maior parte das lyricas de João de Deus, um certo geito facil e correntio na composição grammatical dos periodos, a suavidade das rhimas, a doçura das expressões, a harmonia cadenciosa dos versos e um certo tom de intima melancolia que se faz sentir até nas idêas as mais graciosas revelam a decidida predilecção que o cantor da Heresta tem pelo desafortunado scismador de Macau.