É esta a feição seria, a feição elevada e talvez caracteristica do genio poetico de João de Deus. Como todas as grandes vocações, como todas as naturezas ricas, João de Deus porém não é menos apreciavel, nem menos digno de estudo pelo lado alegre, malicioso e a espaços finamente epigrammatico. Ás vezes chega a ser um observador digno de competir com Molière ou Tolentino. Os Caturras é composição de emparelhar com a Funcção ou com o Bilhar do diabolico professor de rhetorica; e o Gaspar póde pedir meças em ridiculo a qualquer dos frades grotescos da numerosa collecção de Bocage. E o epigramma aqui é tanto mais pungente quanto menos grosseiro, e a caricatura tanto mais graciosa quanto menos exagerada.

Ha alli o sal attico de Terencio e não a especiaria acinante de Plauto, a não ser talvez nos versos intitulados—Uma femea,—brazileiros no titulo e no sabor, d'um piquesinho de gosto bastante equivoco.

E já que entramos no capitulo das maculas, convém dizer-se que João de Deus é por vezes revolucionario de mais em assumptos de metrificação. Eu não gosto de absolutistas nem mesmo em poesia, mas tambem não morro de amores pelos tão republicanos que nos levem á demagogia. É preciso que sejamos um pouco constitucionaes em tudo. Ora a constituição poetica tem artigos que se não podem infringir sem se incorrer no crime de leso bom gosto, porque o bom gosto foi e ha de ser sempre o eterno legislador d'estes codigos. Um verso frouxo ou manco e uma rhima equivoca ou violenta hão de ser perpetuamente defeitos.

Quem disser o contrario ou é tolo ou tem ouvidos de cortiça. João de Deus cahe por vezes nestes dous peccadilhos, deixando alguns versos arrastados, e outros duros; estes porém muito menos frequentes do que os primeiros. Mais frequentes são as rhimas violentas, algumas realmente d'um mau gosto insustentavel, taes como: justiça rhimando com pinça, como a paginas 152; rio e viu, como a paginas 159, e ainda algumas outras.

É da tarifa dizer-se em occasiôes similhantes, como são da tarifa todas as vulgaridades, que não ha livro sem defeitos. Eu creio piamente na sentença, e até creio que um livro sem defeitos, se existisse, devia ser o mais defeituoso de todos os livros, o mais sorna e o mais semsaborão. Eu porém quando abro um livro não é para lhe andar a catar os defeitos pagina por pagina, como quem anda ao pulgão pelos vinhedos. O que busco n'um livro são ensinamentos, calor de vida, fogo de coração e luz de intelligencia; esplendores de espirito e esplendores de palavra; genio, alma e sentimento.

Ora um livro de versos onde ha composição como a Rachel, O Musgo, Ultimo adeus, o Remoinho, a Carta, e trinta outras lyricas de tal novidade e tal merecimento, tem obrigação de ter defeitos, por que sem elles... seria um livro impossivel, uma verdadeira monstruosidade. Diga-se aqui pois, e para se pôr ponto ao aranzel, que o livro de João de Deus tem maculas, mas que estas, como as do sol, desapparecem no meio dos esplendores d'aquella immensa luz de vida, de genio e de inspiração. Flores do Campo é finalmente um livro de versos, como ha poucos n'este paiz, desde que por cá se escrevem versos.[1]

Guarda, 4 de fevereiro de 1869.

Alexandre da Conceição.

[1]Jornal do Porto (1869) n.º 33.

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