REVISTA CRITICA BIBLIOGRAPHICA
Flores do campo, por João de Deus, publicadas pelo seu amigo José Antonio Garcia Blanco—Lisboa, typ. Franco-portugueza, 1868—Em casa de Ferin & Robin—1 vol. in-16.º—271.
João de Deus é um personagem semi-lendario na tradicção academica, e apesar de homem do nosso tempo, e tão do nosso que até com um diploma de deputado se nos apresentou ha pouco, anda-lhe o nome rodeado de quasi os mesmos fulgores e as mesmas sombras em que uma historia superficial ou mentirosa envolveu os velhos trovadores da Provença.
Permittam-me uma digressão.
Ha n'esta sociedade portugueza—já agora, ao que parece—condemnada a refocilhar em monturo de sanefas lantejouladas e rotas que lhe deixou o passado, e a dar ao mundo o triste espectaculo d'uma nacionalidade sem idêa que a represente na historia philosophica de amanhã, sem ideal que lhe seja pharol e bussola na tormentosa navegação das sociedades d'hoje; ha, digo, n'esta nossa sociedade amortecida: extraordinarias visões, mysteriosos anceios, esforços convulsivos como que filhos de ignotos impulsos, que bem poderiam passar por agonias e paroxismos annunciadores da proxima dissolução, se um diagnostico escrupuloso não encontrasse antes n'aquillo promessas de reacção proxima, de rejuvenescimento que não vem longe, de evolução fatal, que, em Portugal como em toda a parte, denuncia por aquellas aberrações e anormalidades a sua sublime prenhez d'uma nova idêa, d'uma era nova.
Erguem-se no meio da grasnada petulante ou esteril da litteratura, vozes persistentes... doces ou enthusiasticas, sympathicas ou ameaçadoras... frescas, novas, originaes—raræ voces!—que parece irem na turba desmoralisada pôr em vibração alguma cellulasinha não contaminada do mal.
E a turba põe-se a escutar, a applaudir, a aspirar soffregamente os frescores e doçuras, que tão enormemente se distanceiam dos miasmas do ambiente habitual, do sabor da habitual pitança.
Alteiam-se, no meio da calaçaria geral, do geral e natural desanimo, vontades energicas que a pedraria da mestrança ignorante, intolerante e madraça não consegue desviar um momento da faina do estudo e da evangelisação scientifica.