E a turba vae attentando n'ellas, vae sympathisando com aquelles revolucionarios heroicos do marasmo, vae comparando-os com os idolos anões que, sem ella saber como nem porque se grudaram aos altares da sua admiração, vae fitando os novos horizontes para onde lhe apontam os novos chefes, vae-os seguindo já ao impulso d'uma necessidade indefinivel mas fatal. Ha n'isto, já se vê, alguma cousa d'allucinação infantil. Crê-se que os novos Moysés levam comsigo, completas, as verdadeiras taboas da lei, e rasgarão com a magica varinha as brumas que envolvem a terra da promissão.
Engano. Não lhes dão as forças para mais que para um terço do caminho, se tanto. Mas isso mesmo é muito, é o que basta. Hão de apparecer novos guias. A questão é saír da esterilidade do deserto.
Citemos porém dois factos, tiremos dois exemplos, apenas, de tantos que podiamos apresentar da revolução litteraria que se realisa surdamente no seio da nossa pequena sociedade.
Sejam elles, por hoje, dois poetas: Theophilo Braga e João de Deus; dois verdadeiros revolucionarios como outros de que para o diante terei de fallar. Um, apesar do mal que dizem d'elle, e do mal, que é maior talvez, que elle a si proprio faz, é inegavelmente um dos nossos poucos talentos originaes na concepção e na manifestação litteraria, na idêa e na fórma, e se não é marco que no futuro atteste um grande e brilhante progresso na litteratura patria, é como que atrio imperfeito e tosco, mas espaçoso e altaneiro que póde servir d'entrada a pantheon de explendidos engenhos.
E grande engenho é Theophilo, de certo.
Por entre uma saraivada d'apodos e improperios de mau gosto ou má fé, conquistou elle um logar elevado, na poesia portugueza d'hoje, cujos magnates na maxima parte, persistem, com risivel teimosia, em trazer-lhe engastada na corôa á laia de fina joia, o carvão da ignorancia, ou em mascararem-na com um falso e retrogrado classissismo.
Theophilo porém avançou menos do que devia.
O idealismo desvairou-o, o romancismo perdeu-o.
Um dia a voz sympathica, insinuante, ora melancholica e dolorida, ora—bem poucas vezes!—alegre e enthusiastica de João de Deus começou de fluctuar por sobre o borburinho cançado e monotono das nossas letras. Não se sabe como nem quando foi. Perdeu-se a chronologia biographica nos encantos do quasi—extasis. Sabe-se sómente que a reputação do poeta não nos entrou na terra, dentro do cavallo de pau d'algum chefe grego, mestrão consummado n'estas maquinações. Sabe-se tambem que João de Deus não andou por salas e officinas, annunciando a fazenda que tempos depois, atirada ao mercado, podia realisar o caso da mons parturiens.
João de Deus apparecia-nos uma ou outra vez n'um periodico de Coimbra; ora nos segredava uma estrophe singela e melodiosa pelo postigo de uma typographia alemtejana; ora surgia em um periodico da capital a contar-nos umas duvidas que o magoavam, umas saudades indefiniveis que o pungiam, uns vagos amores que lhe andavam rumorejando lá dentro em vagas harmonias.